As Relações Perigosas

A primeira coisa que uma obra deve fazer para conquistar um leitor desavisado é seduzi-lo. A capa pode ser um chamariz, mas como beleza não põe mesa, é pelo título que o convite sedutor se faz. E “relações perigosas” é um convite para tudo o que vai se seguir: desejo e manipulação. Não nego que exista títulos que pareçam obscuros ou metafóricos ao leitor, mas esse não é o caso. Mais claro do que isso, só um resumo na capa.


As Relações (ou ligações) perigosas – há as duas traduções, é uma obra de 1782: pré-revolução francesa. Contextualizando, quando a monarquia caiu. Mas como isso não acontece do dia para a noite, na época da publicação as coisas já não andavam muito boas para a aristocracia, e o livro de Choderlos de Laclos fez o favorzinho de botar lenha na fogueira. Acontece.

Como eu sei que vocês gostam de coisa errada, recomendo a leitura porque ele foi proibido – e muito contestado. Vejamos se a reclamação procede:

(Sem spoiler)

A obra tem construção inteiramente epistolar, ou seja, é composta por 175 cartas de diversos remetentes. As cartas relatam a podridão moral da aristocracia, tão hipócrita do alto de sua posição social. Temos duas tramas de sedução principais, ligadas ativamente pelo Visconde de Valmont e passivamente pela Marquesa de Merteuil. Distinguo ativamente e passivamente por um motivo simples: o Visconde se dispõe a seduzir duas jovens, enquanto a Marquesa instiga-o a fazer isso em um caso por vingança, e em outro por frivolidade.

Hoje em dia, o leitor não está acostumado a se deparar com obras epistolares, e essa é uma deliciosa oportunidade para conhecer um estilo novo. Claro que tem umas safadezas no livro, senão não teria tido tanto rebuliço: você não está curioso para saber como dois membros da aristocracia teriam relatado seus momentos de intimidade? Garanto que não foi no estilo do whatsapp. Porém, a grandiosidade da obra se faz pelo desdobramento e desenvolvimento da arte da persuasão.

No Brasil, foram publicadas seis (!!) traduções das Relações, você pode encontrar disponíveis quatro delas – duas estão fora de circulação. Não nego que não seja a obra mais simples de ser lida, mas vale a pena, por isso vou dar a minha opinião sobre as traduções, com o intuito de ajudá-lo a escolher a que melhor possa satisfazer-lhe.

Fora do mercado temos a tradução de Osório Borba (1947) e Maria Lúcia Pessoa de Barros (1962). Se você possui a edição de Osório Borba (pela editora José Olympio), por favor entre em contato. Segue as traduções disponíveis:

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1947: Carlos Drummond de Andrade (R$40, Globo). Drummond quis fazer essa tradução, porque era um de seus livros preferidos. Sua tradução emprega o uso do vós, o que requer um pouco de traquejo gramatical do leitor contemporâneo.

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da coleção Imortais da literatura universal

1961: Sérgio Milliet. Muitas casas editoriais publicaram essa tradução, por isso se você comprar o livro em um sebo, a chance de ser essa versão é grande. É uma tradução que se aproxima da de Drummond, também empregando o uso do vós, porém eu particularmente achei mais acessível.

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2008: Fernando Cacciatore de Garcia (R$25, L&PM). Essa, com certeza, é a tradução mais fácil de ler. Obviamente a editora fez uma encomenda para que o texto fosse ao máximo esclarecido e facilitado para maior acesso dos leitores, ferindo, porém, a fidelidade à obra – tema tão discutido e discutível na área dos estudos da tradução.

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2012: Dorothée de Bruchard (R$23, Penguin). Um trabalho primoroso, a tradutora soube dosar habilmente a rigidez da fala aristocrática com a necessidade de adaptação do texto para o leitor contemporâneo. O texto é facilmente compreensível, sem violar a sua integridade. Essa tradução é a minha menina dos olhos nos meus estudos.

Ligações Perigosas

No filme de 1988:  Visconde de Valmont e Marquesa de Merteuil.

O romance já foi adaptado diversas vezes para o teatro e para o cinema. Sua versão mais recente, Ligações Perigosas, é de 1988, com John Malkovich e Glenn Close nos papéis principais. Outra adaptação interessante e fiel é do seriado Ligações Perigosas, pela rede Globo, veiculado em 2016, com Patrícia Pillar e Selton Mello.

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Menos óbvio, o filme Segundas Intenções, de 1999, é uma releitura do romance de Laclos. Ao comparar as duas histórias, torna-se claro que a temática é a mesma: uma aposta para a sedução que tem como consequência o amor real, porém criado por manipulação. A correlação entre as personagens das obras também fica evidente.

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Ryan Phillippe como Sebastian Valmont e Sarah Michelle Gellar como Kathryn Merteuil.

Como a obra original está em domínio público, me sinto à vontade para  publicar meu trecho preferido, seguido da minha tradução, porque nenhuma está em domínio público e eu tenho responsabilidade jurídica (não me processem).

“On s’ennuie de tout, mon Ange, c’est une loi de la Nature ; ce n’est pas ma faute.

Si donc je m’ennuie aujourd’hui d’une aventure qui m’a occupé entièrement depuis quatre mortels mois, ce n’est pas ma faute.

Si, par exemple, j’ai eu juste autant d’amour que toi de vertu, & c’est sûrement beaucoup dire, il n’est pas étonnant que l’un ait fini en même temps que l’autre.

Ce n’est pas ma faute.Il suit de là, que depuis quelque temps je t’ai trompée : mais aussi, ton impitoyable tendresse m’y forçait en quelque sorte ! Ce n’est pas ma faute.

Aujourd’hui, une femme que j’aime éperdument exige que je te sacrifie. Ce n’est pas ma faute.

Je sens bien que te voilà une belle occasion de crier au parjure : mais si la nature n’a accordé aux hommes que la constance, tandis qu’elle donnait aux femmes l’obstination, ce n’est pas ma faute.

Crois-moi, choisis un autre amant, comme j’ai fait une autre maîtresse. Ce conseil est bon, très bon ; si tu le trouves mauvais, ce n’est pas ma faute.

Adieu, mon ange, je t’ai prise avec plaisir, je te quitte sans regret : je te reviendrai peut-être. Ainsi va le monde. Ce n’est pas ma faute.”

“Tudo é monótono, meu anjo, é uma lei da natureza: não é culpa minha.

Então, se hoje eu me canso de uma aventura que me ocupou inteiramente por quatro mortais meses, não é culpa minha.

Se, por exemplo, eu tive exatamente o mesmo tanto de amor que você de virtude, e isso com certeza é dizer muito, não impressiona que um tenha acabado ao mesmo tempo que a outra. Não é culpa minha.

Acontece que, já faz algum tempo, eu te traio: mas também, a sua implacável ternura me forçou de alguma forma! Não é culpa minha.

Eu sinto que essa é uma boa ocasião para que você grite que é perjúrio: mas se a natureza não concedeu aos homens nada além da constância, enquanto dava às mulheres a obstinação, não é culpa minha.

Acredite, escolha um outro amante, como eu fiz outra amante. Esse conselho é bom, muito bom, se você o achar ruim, não é culpa minha.

Adeus, meu anjo, eu te tive com prazer, eu te deixo sem remorso: eu voltarei a ti, talvez. Assim vai o mundo. Não é culpa minha.” 

 

As relações perigosas foi um escândalo incomensurável na França do século XVIII por expor – apesar de fictícias – cartas da aristocracia pérfida e imoral. Entretanto, o texto continua absurdamente atual, uma vez que nunca a sociedade se desvincilhou do vício em ser hipócrita.

Atualização:

Minha amiga Michelle, protagonista deste post, me instigou a procurar, mais uma vez, a tradução de Osório Borba no site Estante Virtual. Para minha imensa felicidade encontrei-o por 15 reais! Aguardo, ansiosíssima, sua chegada ao lar em breve.

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4 comentários sobre “As Relações Perigosas

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