Assédio

Eu pensei muito se eu deveria escrever esse post. Talvez ele vá ficar no rascunho por um tempo. Não é um assunto fácil de se escrever.

Há algumas semanas temos visto diversas denúncias de assédio sexual em Hollywood. Há anos se sabe das polêmicas dos diretores Woody Allen e Roman Polanski, mas a indústria sempre passou pano. A questão do assédio voltou à tona com uma enxurrada de denúncias contra Harvey Weinstein, e essa exposição toda fez com que muitas mulheres tivessem coragem de denunciar outros poderosos, como Kevin Spacey e Louis C.K. A lista é tão extensa que eu fiquei com preguiça de digitar, mas você pode olhar um resumo dos casos aqui.

A sensação que se tem é de que ninguém está a salvo. E essa frase é ambígua: nenhuma mulher está a salvo de não passar por isso; nenhum homem está a salvo de não ser denunciado. E essa frase é muito forte. Ter a sensação de que qualquer homem pode na verdade se tornar um assediador é assustador demais, mas é o que as mulheres vêm descobrindo cada dia mais. Eu sinceramente não me surpreendo mais com as denúncias. Se antes a reação era nossa mas até ele? , agora é ah mais um que é podre…

E a gente vê todos os dias casos horríveis de estupro e agressão contra mulheres, gays, trans… E até de quem os defende. Resumindo, é um péssimo momento para se viver no planeta Terra.

A questão que eu quero colocar aqui não é uma filosofia de como a humanidade está perdida. Na verdade eu quero contar o que aconteceu comigo, porque a gente sempre pensa que essas situações não vão acontecer conosco. “Ah eu sou discreta, não vão me assediar; eu não sou igual essas modelos e atrizes, não tem porque me assediarem, não sou gay, não vão me machucar; não frequento lugares errados, não vou conhecer ninguém perigoso…”. Se você já pensou alguma frase nesse estilo, repense a sua segurança. Pode acontecer com qualquer pessoa.

Eu sofri três casos de assédio que não tiveram nenhuma consequência grave, e eu tive muita sorte quanto à isso,  mas eu fiquei muito assustada. Cronologicamente exponho.

1) Em 2008

Eu estava fazendo intercâmbio na França e morava com um casal e seus dois filhos. Toda quarta-feira à noite íamos nadar na piscina de um clube. Eu não queria nadar, então estava numa piscina aquecida que tinha uma corrente d’água. Eu estava brincando de andar contra a corrente, ao lado de um corrimão quando um homem chegou perto de mim rindo, brincando. Ele se aproximou, eu achei que fosse só um cara sem noção querendo fazer amizades. Na França, eu não desconfiaria… Mas ele se aproximou, fez uma piadinha sobre a corrente d’água e começou a colocar a mão na minha cintura. Eu estava entre ele e a parede. Não sabia o que estava acontecendo, que de fato poderia ser uma pessoa mal-intencionada, não podia acreditar. Quando ele apalpou minha bunda, eu não tive mais dúvida. Eu simplesmente me soltei do corrimão e deixei a corrente me levar para o outro lado da piscina. Encontrei meus dois irmãos, que ficaram muito chocados. O menor, de 12 anos, queria ir bater no homem. Contei para os pais também, que ficaram chocados, mas não houve nenhum tipo de consequência ou denúncia no clube. Eu tinha 17 anos.

2) Em 2010

Eu estava prestando vestibular, foi um ano horrível, claro, porque eu estava fazendo cursinho. E todo mundo que já fez vestibular sabe como é horrível fazer vestibular. Se algo der errado, você PERDEU um ano. Eu tinha feito as provas da UNESP, USP e UFMG. Se eu não passasse, seria mais um ano de muita cobrança e culpa. Não que minha família me cobrasse, mas eu mesma sou muito exigente comigo. Quando eu passei na UNESP, eu fiquei muito feliz. Fomos eu, minha mãe e meu avô de carro para Araraquara para fazermos a matrícula. Eu estava tão feliz, e eles tão orgulhosos! Foi uma viagem de cerca de 4 ou 5 horas.

Quando chegamos na faculdade, minha mãe e meu avô não puderam me acompanhar na sala de matrícula, mas eu não me importei. Eu estava conquistando uma coisa que eu queria muito, eu ia começar uma fase nova ! Assim que cheguei na sala da matrícula, uma pessoa estava saindo e eu fiquei sozinha com o funcionário da faculdade. Fazia muito calor, porque era final de ano, e eu estava vestindo uma regata decotada. Eu me culpo muito por isso, mesmo sabendo que não foi minha culpa! Eu estava feliz! Minha única preocupação era de não conseguir me matricular em francês. O homem me explicou quais formulários eu deveria preencher e me acompanhou até uma mesa. Me sentei e ele passou a me apontar os campos a serem preenchidos, de forma extremamente minuciosa. Eu não precisava de instruções, eu fui inteligente o suficiente pra passar no vestibular. E ele falava “aqui você coloca o nome… aqui você coloca a data de nascimento…”, mas enquanto ele me instruía, também roçava seu braço dele nos meus seios. A primeira vez eu achei que tinha sido sem querer, ele pediu desculpas, eu não falei nada. Mas ele continuou. Eu fiquei petrificada. Eu estava com muito medo de falar alguma coisa e ele barrar minha matrícula, por qualquer motivo. Ou quando eu saísse, ele jogasse os papéis fora… Eu fiquei de braços cruzados, para impedir, mas ele continuou. Eu rapidamente preenchi os papéis e fui embora. Me parte o coração falar isso, porque eu estava voltando pra casa com minha mãe querida e meu avô amado, os dois felizes por aquele momento, e eu estava me sentindo um lixo. O momento que era pra ter sido uma boa memória, de conquista, de triunfo, virou memória de como na verdade eu não passo de um par de seios. Eu fiquei em dúvida de escrever esse post porque eu nunca contei isso pra ninguém na minha vida. E eu tenho tanta vergonha do que aconteceu, de não ter feito nada… Mas eu estava em choque e com medo de ser punida. Eu entendo as mulheres que demoram anos pra relatar um estupro, porque se eu fiquei extremamente envergonhada por um homem encostar o cotovelo nos meus seios, eu imagino o sentimento que uma mulher estuprada pode ter.

3) 2016

Eu trabalhava em Santo André e morava em Ribeirão Pires. Um dia, mais ou menos às 11 horas, eu estava indo trabalhar de carro. Eu estava feliz, cantando a música do rádio, estava de bom-humor e aquele dia ia ser ótimo! Parada no sinal em Mauá (quem conhece sabe bem qual é, na frente do habbib’s), quando o carro do lado buzinou e acenou pra eu abaixar o vidro. Eu, mais uma vez ingênua, pensei que ele quisesse informações, que estivesse perdido. Eu abaixei metade do vidro, e o rapaz me elogiou, disse que eu tinha um sorriso lindo. Eu acenei com a cabeça e com um sorriso amarelo enquanto fechava o vidro. Ele continuou acenando, fazendo mímicas. Achei assustador. Em seguida, ele mudou de faixa e ficou na minha frente. No sinal seguinte, parados, ele abriu a porta e colocou o metade do corpo pra fora, fazendo sinal de que iria até meu carro falar comigo. Eu entrei em pânico, verifiquei se as portas estavam trancadas, fiquei muito assustada. Nada aconteceu depois disso, mas eu fiquei com muito medo e me senti muito invadida.

Me dói muito contar esses pequenos casos, porque eu me sinto muito envergonhada. Porque eu sei que vou fazer as pessoas que me amam sofrer por descobrirem isso agora, por verem que eu sofri calada. Realmente parece que a culpa foi minha: se eu não tivesse respondido ao homem na piscina assim que ele se aproximou, se eu tivesse de pronto me afastado; se eu tivesse afastado o braço do homem na UNESP, se eu tivesse reclamado, se eu não estivesse com decote; se eu logo tivesse mudado de faixa e me distanciado do carro, se eu tivesse mudado o caminho… Mas não sou eu que devo mudar, os homens é que devem saber que não podem abordar qualquer pessoa agressivamente. Isso não é ser determinado ou romântico, como o cara do carro com certeza pensou. Eu não me senti lisonjeada com o elogio dele. Eu sou mais do que meu corpo, e eu quero que as pessoas, todas elas, pensem isso também. Não só sobre mim, mas sobre todas as mulheres. Eu quero que todo mundo pense que as pessoas são mais do que seus corpos, cores, religião ou orientação sexual.

Eu conheço histórias de pessoas muito próximas de mim que também sofreram assédio, casos infinitamente mais graves que os meus, mas não me vejo no direito de expô-las, mesmo que anonimamente, mas fique à vontade se você quiser contar sua história nos comentários.

Hoje em dia eu raramente uso decote.

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3 comentários sobre “Assédio

  1. Fran-nine disse:

    Sinto saudade de te chamar de Lali… você não está sozinha nessa, todas as mulheres infelizmente já passaram por algum caso desses (eu mesma) mas é muito difícil falar sobre até mesmo porque lembrar dessas coisas nos machucam e ainda tem a culpa que nem nossa é mas achamos as vezes que é. Tenho lido seus posts ❤

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