a vergonha que acompanha o amadurecimento

Você com certeza já fez alguma coisa em um encontro amoroso que, em duas horas, dois dias ou dois meses depois, fez com que você se arrependesse amargamente, mas que na hora parecia normal. A vida, essa danada, é implacável conosco: acaricia com uma mão e apedreja com a outra. Ou, como minha mãe gosta de falar, “cobre um santo e descobre outro”.

Todos os dias a gente amadurece. É igual fazer dieta, você não vai perceber de um dia pro outro, mas se comparar o antes e o depois, uau!

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eu adoro essas fotos de antes e depois. ig: @_mckennasmith

E isso acontece em todas as idades. Fico triste de ver minha prima de oito anos ter vergonha de fazer coisas que antes ela fazia naturalmente. Por exemplo, subir em um palco vazio e falar bem alto “SENHORAS E SENHORES…”, e começar uma apresentação que absolutamente ninguém pediu, mas que todos precisam.

É isso, essa é a crueldade da vida. A gente toma consciência de que, quando a gente se  achou sábio, a gente na verdade era parvo. No futuro, vou ler esse texto e ter vergonha dele também, infelizmente.

Um dia desses, eu me lembrei de um causinho que me encheu de vergonha. Relato:

Eu devia ter uns treze ou quatorze anos. Não lembro como foi que conheci esse livro, mas o fato é que eu estava lendo A montanha e o rio, do escritor chinês Da Chen. É um livro que é possível encontrar em supermercados, o que já denuncia um pouco a sua qualidade literária. Acuse-me de preconceito contra livros em mercados e eu não negarei nada!! Segundo a wikipédia, foi considerado o melhor livro do ano de 2006 por alguns jornais americanos. Pois isso não prova nada.

A história é absolutamente água com açúcar, mas com uma pitada de violência. Segundo a minha memória, são dois irmãos que crescem separados, em situações opostas: o clichê família rica e família pobre. Um vira político, o outro vai preso… Os irmãos, bem à la Ruth e Raquel, se apaixonam pela mesma moça, claro. E por aí vai a história.

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eu odiei essa novela.

Vejamos a sinopse que descaradamente copiei do site da livraria cultura: No auge da Revolução Cultural chinesa, Ding Long, um jovem e poderoso general, gera dois filhos. Um deles, legítimo. O outro, nascido de uma jovem camponesa que se atira do alto de uma montanha pouco depois do parto. Tan cresce em Beijing, cercado de luxo, carinho e conforto, ao passo que Shento é criado nas montanhas por um velho curandeiro e sua esposa, até que a morte do casal o leva a um orfanato onde passa a viver sozinho, assustado e faminto. Separados pela distância e pelas condições de vida, Tan e Shento são dois estranhos, que crescem ignorando a existência um do outro. ‘A montanha e o rio’ narra a saga desses dois irmãos que trilham caminhos distintos, mas cujas vidas se encontram quando se mesclam aos acontecimentos que marcam a história política e social da China no final do século XX.

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Eu não lembro o final, mas na época eu adorei o livro, quiçá eu tenha amado. Tudo bem, eu também amei a saga crepúsculo na minha adolescência, é aceitável! Essa é a função da juventude: experimentar coisas de gosto duvidoso, quiçá duvidosíssimo, para aprender o que é bom e o que é, bem, duvidoso. Por exemplo, quando eu pintei o cabelo de rosa. Mas não quero falar sobre isso.

Voltando ao livro, se eu só tivesse lido e adorado, tudo bem. O problema é que eu recomendei o livro. Se fosse para uma amiguinha, tudo bem. Mas não, foi para a pessoa que sempre foi para mim, e ainda é, um baluarte intelectual: o meu vovô.

Preciso abrir um parênteses e dizer que não estou menosprezando esse livro, talvez esteja, mas todo livro tem seu valor, mesmo que seja valor nenhum. É um romance interessante para se adquirir certa noção do que foi a Revolução Cultural chinesa, que muita gente desconhece. Um livro é sempre acesso a um mundo, a uma cultura e, por pior que seja, sempre é um exercício de aprendizado de ortografia. A questão é que, apesar de bem escrito, é um romance permeado de clichês, e para alguém como o meu vovô, que já tinha vivido muito e lido muito, não seria nada inovador.

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para se ter uma noção, essa era a bibliotequinha do meu vovô… e essa a neta do meu vovô.

Como posso explicar a minha vergonha ao lembrar que indiquei um livro de supermercado para o meu vovô… E pior, eu indiquei com o maior entusiasmo possível! E ele, tão amoroso, tão incentivador do hábito da leitura e da minha atitude, comprou o livro. Às vezes eu fico imaginando o que ele pensou… deixa eu comprar esse livro que minha neta quase adolescente adorou e indicou. Meu Deus, o que ele esperava ler??? Até então, meu livro preferido era toda a coleção de dez volumes de O diário da princesa. Acabei de verificar que foi publicado um décimo primeiro livro, e eu vou ler sim, em nome dos bons tempos em que eu podia sonhar com um futuro principesco.

Alguns dias depois, meu lindo vovô me procura: havia terminado a leitura. E eu, animadíssima, perguntei o que ele tinha achado. Não me lembro bem as palavras que ele usou, mas foi algo reticente, como “é um pouco dramático, né?”. Não nego, fiquei decepcionada. Depois de anos, encontrei a sua edição nessa bibliotequinha da foto… Sorri, com o coração lavado e enxaguado* de saudade.

Para contrapor os papéis, meu vovô sempre me aconselhou leituras. Eu gostava de pensar que tínhamos uma tradição de irmos à Bienal do Livro juntos, apesar de termos ido somente em duas ou três edições. Na última, ele não me recomendou, mas disse que era imprescindível que eu lesse Érico Veríssimo. Ele nunca tinha me recomendado nada com tanta veemência. Escolheu três livros desse autor e comprou-os para mim.

E essa é a vergonha que eu carrego no meu amadurecimento literário. Recomendei um livro de supermercado para o meu vovô, enquanto ele me indicava Érico Veríssimo…


Naquele ano, li Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. A história é maravilhosa, recomendo com veemência, tal qual vovô. Segundo a livraria cultura, É 11 de dezembro de 1963. Greve geral em Antares. O fornecimento de luz é interrompido, os telefones não funcionam mais, os coveiros encostam as pás. Dois dias depois, uma sexta-feira 13, sete pessoas morrem – entre elas d. Quitéria, matriarca da cidadezinha. Insepultos e indignados, os defuntos resolvem agir – querem ser enterrados. Reunidos no coreto, decidem empestear com sua podridão o ar da cidade. Enquanto ninguém os enterra, porém, resolvem acertar as contas com os vivos e passam a bisbilhotar e infernizar a vida dos familiares.

Não recomendo se você não gostar de leituras que envolvam política (o que eu adoro), ou elementos sobrenaturais (o que eu amo).


*A expressão “com o coração lavado e enxaguado de…” foi usada em homenagem a Odorico Paraguaçu, detentor da maior e melhor retórica do Brasil e mundo. Meu vovô sempre comentava que seu pai, meu bisavovô, adorava o jeito de falar de Odorico. Eu também, é de família.

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