O fim do finalmente (conto)

Este conto foi escrito para o curso de escrita criativa que fiz entre os meses de março e maio. É o primeiro conto que escrevo, espero que gostem.

Por Laís Zampol Dell Antonia.


– Além disso, a Mirtes é muito prendada, eu já te mostrei o jogo de toalhas que ela bordou pra mim? Um mimo!

Fazia agora duas semanas que Lina vinha falando de todas as maravilhas em ser amiga de Mirtes. No início, Rômulo achou que a irmã estava contando ao acaso, só para ter algum assunto para conversar no café da manhã. Ele tomava café com leite, e ela chá de framboesa, servidos em graciosas xícaras decoradas. Lina fazia questão de que cada dia da semana fosse usada uma xícara específica, para “respeitar a história”, argumentava. Na segunda-feira, Rômulo era espectador de uma mocinha com vestes pomposas lendo um livro num jardim. Na terça, a mocinha aparece ao lado de um balanço, com o livro na mão. Na quarta, um rapaz toca flauta para a mocinha, que está se balançando. Na quinta, ambos aparentam ler o livro sentados perto de flores. Na sexta, beijam-se! Sábado e domingo Lina gostava de usar o caríssimo jogo de chá inglês azul. Rômulo não achava plausível a teoria que sua irmã caçula criara sobre a moça da xícara. Era, não podia negar, a mesma mocinha e o mesmo rapaz, mas ninguém poderia supor que fosse uma sequência. De qualquer forma, não negaria à irmã um capricho tão banal e com o qual ela se deleitava.

Quando Rômulo percebeu que era a segunda vez que ele via a flauta ressoando “Mirtes” pela saleta, soube que não era acaso. Óbvio! Mirtes tinha acabado de chegar à cidade, depois de seis meses no interior, e sua irmã queria juntá-los. Só podia ser isso. Alguns anos antes, ele teria se rejubilado. Ele, mais do que ninguém, sabia de todas as prendas e qualidades de Mirtes, não havia necessidade de sua irmã lembrá-lo… daqueles tempos…. que só ele pode fazer-se lembrar, uma vez que nem Lina, nem Mirtes souberam de sua inclinação pela melhor amiga da irmã. Logo depois, Mirtes começou a namorar Milton, parecia que iria dar casamento. Ele não sabe muito bem como foi que aconteceu, mas de fato houve um casamento: entre Milton e Rita. Talvez Lina tivesse detalhado o ocorrido na ocasião, mas ele já não se interessava mais pelo assunto Mirtes. Adorava a irmã, mas em geral não escutava seus devaneios fúteis e mexericos sobre pessoas que, caso conhecesse, ele simplesmente não se importava.

Depois da decepção, não demorou muito para que o sorriso de Mirtes passasse a ser cada vez menos frequente em suas divagações. Logo, foi completamente substituído. Era Isabel agora quem lhe botava caraminholas na cabeça. Com Mirtes, ele de pronto se interessou com grande entusiasmo. Rápida também foi a forma com que essa chama se apagou, por não ter nenhum encorajamento. Com Izabel foi diferente. Havia seis meses que pegavam a condução juntos. De segunda à sexta-feira, às 7 horas, no ponto da rua dos Arcanjos. No início, ele somente dava um sorriso tímido e desejava bom dia, por educação. Depois vieram alguns contratempos típicos da temporada de chuvas: dividir uma sombrinha, reclamar do atraso do ônibus encalhado na lama, oferecer um lenço para limpar os respingos de água na bolsa… E conforme o tempo foi passando, dia após dia, Rômulo passou a reparar no sorriso fácil dela, no olhar sonhador, nos movimentos ágeis com que ela passava creme de lavanda nas mãos… Arriscava alguns assuntos banais: “puxa, quem diria que hoje ia esquentar tanto?”, ao que ela respondia “passei um calorão com essa meia-calça grossa na loja!”, e ele logo não sabia o que dizer, sorria timidamente e olhava para a paisagem que corria na janela.

Fazia um ano e meio que entoavam essa conversa-desconversa. Quanto mais o tempo passava, quanto mais do tempo falava, menos coragem de convidá-la para sair tinha. Todos os dias, à noite, ensaiava o que diria na manhã seguinte. Já tinha um roteiro perfeito que infalivelmente levaria a um convite absolutamente natural:

– Bom dia Izabel! Como está Dona Conceição essa manhã? – começaria da mesma forma de sempre, para não levantar suspeitas.

Ela respondia, em geral, de duas formas diferentes. Ou Dona Conceição estava bem, tendo-a deixado tomando seu café com leite, ou Dona Conceição teria acordado indisposta, e Izabel voltaria para vê-la no seu horário de almoço. Além do rosto adorável, tinha um bom coração, notara desde o primeiro dia. E quando ela chorou por todo o percurso até o trabalho, com medo de que sua avó morresse… Quase pediu-a em casamento ali mesmo. Queria poder ajudá-la, protege-la, tomá-la em seus braços e dizer que nada, nunca, iria deixá-la triste novamente! O mais perto disso que conseguiu chegar foi oferecer-lhe um lenço, o qual se recusou a receber de volta. No seu diálogo hipotético, caso Dona Conceição estivesse indisposta, infelizmente ele deixaria o plano para o dia seguinte. Ainda não tinha pensado em como transformar “vovó doente” em “convite decente”. Quando vovó estivesse tomando café, ele faria um esforço enorme para conter seus tremeliques de ansiedade, e começaria um interessantíssimo discurso sobre as maravilhas do chá, indicando que seria a melhor opção para a desconhecida, mas já adorada, vó Conceição. Citaria informações medicinais, às quais uma Izabel impressionada reagiria com alguma exclamação, emocionada por ele demonstrar tanta consideração com vovó. Se ele soubesse de qual indisposição se tratava, poderia até carregar consigo uma pequena quantidade de ervas, para oferecer como se fosse uma coincidência extraordinária. Talvez arriscasse com um pouco de boldo, porque funcionava bem para quase tudo do pescoço pra baixo. Se fosse dor nas juntas, aí só camomila… De qualquer forma, não podia levar um pouco de cada chá: como justificaria, caso ela visse? Enfim, depois de falar da saúde da velha, poderia partir para o plano de ação. Contaria que (não) leu no jornal a novidade da Confeitaria Colonial: um chá japonês onde uma flor se abre na xícara! Ela ficaria embasbacada, não acreditaria – ele achava adorável que sua primeira reação era sempre de descrença perante as peculiaridades que a sociedade trazia de fora. E então, finalmente, convidaria-a para ver com seus próprios olhos. Finalmente. Suspirou, exausto do esforço mental que esse esquema lhe exigia. Pensava e repensava nele diversas vezes, nada poderia dar errado. Se, por qualquer motivo, o assunto se desviasse, ele pareceria paranoico voltando ao assunto “chá” em outra ocasião. Daria certo, estava positivo.

Na manhã seguinte, olhou pela janela e viu que o tempo não era dos mais favoráveis. Vinha chuva pela frente, mas o problema mesmo era o vento gelado. Acabou se atrasando no banho, porque não queria sair da água quente. Na pressa de não perder a condução, justo naqueledia, fez com que esquecesse seu guarda-chuvas. Tudo bem, pensou, quando começar a chover eu já estarei na loja. E assim foi.

Encontrou Izabel, perguntou da avó e foi seguindo seu roteiro minuciosamente arquitetado com absoluto sucesso. Até que, finalmente, Izabel desacreditou no chá de flor japonês e ele, trêmulo, convidou-a para sair. Ela abriu um largo sorriso e, quando foi responder, a voz do motorista atravessou-os impiedosamente: praça dos ourives! Ela levantou-se apressada, alisando a saia, e dirigiu-se à porta de saída, falando “Que legal! Vou adorar conhecer, combinamos tudo amanhã, sim?”.

Rômulo estava extasiado, havia um turbilhão de pensamentos passando pela sua cabeça. Primeiro o chá, depois mais alguns encontros casuais: um lanche na confeitaria Colonial, um almoço amigável, um passeio no centro histórico… No cinema, faria o pedido de namoro. Ela, claro, aceitaria, e então a levaria para conhecer sua irmã, e ele também conheceria a Dona Vó Conceição. Em seis meses, noivariam, casando-se dentro de mais seis ou sete meses. Era perfeito, não haveria problemas. Passariam a lua de mel em Petrópolis. Mal podia esperar para afundar seu rosto naqueles cabelos encaracolados, seriam seu novo travesseiro, ter com ela uma conversinha de pé de ouvido, tocar naquela pele macia cor de jambo… Mais uma vez, a voz do motorista arrancou-lhe de perto de Izabel. Desceu do ônibus e entrou na Relojoaria Anastácio. Em algumas horas chegariam seu Anastácio, que cuidava das peças em ouro, e seu sobrinho Anacleto, que consertava relógios. Rômulo abria a loja, limpava as peças em exposição, atendia os fregueses, cuidava do caixa. Fazia um pouco de tudo no que se tratava da área externa da loja. Os outros dois ficavam entocados na saleta empoeirada do andar de cima.

No final da tarde, Lina viu uma figura espectral adentrar a casa: era seu irmão, lavado e enxaguado da tempestade que caía. Tinha lama até os joelhos, aquela calça iria para o lixo, com certeza. Enquanto ela o escoltava até a área de serviços, horrorizada com a sujeira se espalhando pela casa, ele lhe contou que seu ônibus deu uma leveatolada perto da ponte, não teve como não ajudar. Lina achou estranho que o irmão ainda assim parecia contente com a situação, e concluiu que os homens de hoje só buscam um motivo pra voltarem a ser crianças por um dia.

No dia seguinte, estava gripado, terrivelmente gripado. Ao perceber a xícara do beijo já com café frio, Lina apressou-se em ver o irmão. Ardia em febre, se começasse a alucinar, só restaria aguardar o rabecão! Telefonou para o Doutor Alceu, que se prontificou a visitá-lo.

– Não, não… De fato, isso não é nada bom… Ah, mas até que pode ser bom… Depende, sabe? – Saber, não sabia. Rômulo piscava atônito para o doutor, que continuou – Eu sei que faz muito tempo que você não tira umas férias, meu garoto, a vida, sabe como é, não é só trabalho, trabalho… O corpo não aguenta, não sabe?

Nas duas semanas seguintes em que esteve de cama, a única coisa que Rômulo pensava era no que Izabel poderia estar pensando de seu sumiço. E, além dessa preocupação, da dor no corpo e da febre, ainda teve de lidar com uma Mirtes ronronante no pé de sua cama. Lina dizia que precisava de ajuda para cuidar do irmão, mas ele sabia quais eram as reais intenções das duas. Claro que, quando Mirtes não se mostrou interessada, ele sentiu seu ego ferido. Agora, quando ela aparecia rebolante no quarto com uma bandejinha nas mãos, ele se recobria todo, virava pro lado e resmungava alguma coisa. No final da primeira semana, seu Anastácio foi visitá-lo. Dizia que não se preocupasse, que seu sobrinho estava chegando mais cedo pra abrir a loja, e que eles revezavam para atender os clientes. Rômulo ficou mais aliviado. As coisas dariam certo novamente.

Convalesceu-se. Ansiava para ir trabalhar, nunca desejara tanto na vida andar de ônibus. Às sete horas, viu de longe a saia azul marinho do uniforme das Lojas Zezinho balançando com o vento. Era Izabel! Queria correr e abraçá-la e beijá-la e dizer o quanto sentiu sua falta. Conteve-se e sorriu um bom dia. Ela parecia genuinamente feliz em vê-lo, contou o que havia feito nas últimas semanas, dos absurdos que os clientes diziam… Ria ao se recordar. E ele ria por estar feliz em estar ali! Enquanto se aproximavam do ponto onde ela desceria, ele recriou coragem para relembrar do seu convite. Ela ficou séria e, um pouco constrangida, disse que havia conhecido uma pessoa. Ele fez como que não fosse grande coisa, afinal, era só um chá sem importância. Mas ela insistiu em justificar-se:

– Sabe, no primeiro dia que você não apareceu, eu estava atrasada e subi no ônibus com muita pressa, pensei que você já estivesse entrado. Vi um rapaz onde você costuma se sentar… fui direto falar com ele…

– Entendo… Entendo…  – Repetia um despreocupado Rômulo.

– Bem, a semana foi passando, nós conversávamos durante todo o trajeto… Na sexta-feira ele me chamou para sair…

– Claro… Claro… – Rômulo balançava a cabeça afirmativamente, com um sorriso dissimulado.

– Por mais que a gente seja amigos, não acho que seja apropriado eu sair com outro rapaz… Anacleto não vai gostar…

– Anacleto? – o som da palavra amigosainda zumbia na sua cabeça.

– Sim, ele costuma pegar o ônibus mais tarde, mas teve de cobrir um colega que estava doente. – explicou.

– Claro, eu compreendo, não tem problema nenhum! Eu também nem tenho tomado muito de chá esses dias… – sorriu educadamente.

Despediram-se, e ela desceu do veículo. Não culpava Izabel, muito menos Anacleto… queria ter o ímpeto do rapazote. Estava sofrendo as consequências de sua falta de coragem. Se tivesse feito como Anacleto e convidado Izabel para sair na primeira semana que a viu, a essa hora ele estaria casado e com prole. Ai, Petrópolis…!

Quando chegou em casa, um Rômulo abatido foi recebido pela figura rebolosa de Mirtes. Que valor pode ter hoje um desejo do passado? Ele não sabia, mas tentou resgatar aquele Rômulo que, um dia, foi louco por Mirtes.

– Que surpresa agradável encontrar a senhorita aqui! – Era a primeira palavra calorosa dele depois de duas semanas de resmungos. Ela ficou ouriçada, só risinhos, ainda mais quando ouviu:

– Estava justamente pensando em chama-la pra um cafezinho na Colonial… – ele sorria de forma galante.

Finalmenteteria a chance de sair com Mirtes.

 

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