cinco filmes que passam pano para nazista

Começo dizendo que esse artigo não tem intenção nenhuma de se fazer polêmico, é apenas uma reflexão pessoal cheia de opinião não solicitada.

Alguns filmes que vi recentemente me chamaram a atenção para o seguinte fato: a tendência de se romantizar, ou humanizar, os nazistas. Mais adiante exemplifico. A questão é que, desde quando o cinema começou a  retratar a Shoah (termo “correto” para Holocausto), os nazistas eram sempre personagens maus, cruéis, sádicos, enfim… tudo aquilo que pode se dizer como sinônimo do nazismo. Desde o soldado mais raso até o próprio Hitler: todos criaturas odiosas. Tipo em Indiana Jones e os caçadores da arca perdida. Eu amo esse filme, aliás. Entretanto, parece-me haver uma nova tendência no cinema: a de mostrar toda a complexidade ou ambivalência do ser humano, e isso não descartaria os nazistas.

Parte-se do pressuposto que ninguém é uma coisa só. Todo mundo tem algo de bom & mau dentro de si, etc. Coisas da psicologia, ou seria psicanálise? Enfim…

Se antes o cinema mostrava o nazismo como o mal na terra, agora tenho visto cada vez mais filmes que algum personagem é um nazista diferente.

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Quem lembra desse nazista diferente em Bastardos Inglórios? Era diferente até a francesinha dizer não, aí ele atirou nela.

Antes dos exemplos, gostaria de dar a minha opinião totalmente não requisitada e totalmente sem especialização em cinema, psicologia ou história. Mas como o blog é meu, eu me acho no direito de dar pitaco sim. Agora, se o pitaco é relevante, isso é outra história… Ben, eu acho repugnante. Ofensivo. Afrontoso. Absolutamente ninguém quer saber da complexidade que se passa ou passava na mente de um nazista. Será mesmo que a ficção tem o direito de remoer memórias tão recentes e atrozes? Sim, são recentes. Pode fazer mais de 70 anos, mas ainda assim são recentes. Ainda há muitas pessoas que ouviram da boca de sobreviventes histórias pavorosas. Ainda há testemunhos, fotos, vídeos. Esses relatos nunca serão apagados, e em respeito a todas as vítimas, diretas ou indiretas, é necessário não tripudiar em cima da História.

Agora sobre a possibilidade (ou realidade) de haver nazistas diferentes. Acho ingênuo alguém acreditar nisso. Obviamente, os oficiais de alto escalão eram realmente seres hediondos. Quanto a isso, não dá pra negar. E quanto aos soldados rasos? Os guardas? As pessoas que praticamente caíram de balão no sistema? Será que eles não foram impelidos a isso? Ou isso ou morrer? Acho ingênuo também querer acreditar nessa justificativa! Nesse triste capítulo da História, calar era consentir.

1) A sociedade literária e a torta de casca de batata

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Esse filminho água com açúcar entrou no catálogo da Netflix esse mês, e se passa no pós-guerra. Conta a história de uma jovem escritora inglesa que viaja a uma ilha, onde descobre uma sociedade literária muito curiosa. Lá, ela se envolve com a história do local, que foi invadido pelos nazistas durante a guerra. Um filme muito bonitinho e relativamente leve em relação ao assunto. Basicamente, somente cita os prisioneiros que eram feitos de escravos. Nem define se eles eram judeus, comunistas ou inimigos aprisionados. É como se isso praticamente fosse um detalhe. Ok, essa abordagem é meio descompromissada com a realidade histórica, porém entendo que, pela proposta do roteiro, não daria muito para ir nessa direção. Pelo menos citou né. Eis que uma das personagens tem um caso com um nazista. QUE ERA DIFERENTE. Essa parte dele ser diferente, olha, sinceramente, o filme não dá nenhum exemplo palpável disso. “Ah, mas ele ajudou lá no parto do bezerro…”. Nossa, que exemplo de humanidade. A questão é: ele estava ali na ilha, estava a par de toda a situação em relação aos prisioneiros, com certeza sofreu aquela lavagem cerebral ideológica, afinal foram muitos anos de guerra. Agora me diz, onde que ele era diferente? É aquela coisa né, quem cala consente. E nesse caso, não fazer nada é (quase) tão ruim quanto fazer.

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Achei as roupinhas muito legais

Todavia, o filme não me revoltou. Gostei muito das roupas.

2) O leitor

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Kate Winslet ganhou um Oscar por esse filme! Essa história me fez pensar por muito tempo. A cotação dele na Netflix é péssima (75% relevante), e acho que entendi o porquê.* Muitos anos após o fim da guerra, em Berlim, Ralph Fiennes (o Voldemort gente, quem diria) se recorda do seu primeiro amor. O filme volta no tempo e nos mostra como ele conheceu uma mulher mais velha (não lembro o nome, mas é a Kate) e viveu uma paixão com ela. Até aí, tudo bem. Porém, um dia ela vai embora sem eira nem beira, e ele fica sem saber dela. Na faculdade de direito, junto com um professor e alguns colegas, ele vai acompanhar um julgamento de guardas nazistas. É aí que ele vê que uma das mulheres julgadas é a Kate, seu grande amor de juventude. Enfim, é aquela coisa né, ele fica muito abalado. O filme com certeza foi mal avaliado por mostrar uma criminosa de guerra como uma mulher normal, e pior, retratar um romance que o espectador quer que dê certo. Isso é complicado. Você está lá querendo que eles fiquem juntos, cria uma empatia por ela, fica até com pena que ela seja analfabeta… E descobre que ela foi uma guarda num campo de concentração. Isso é bem desconfortável. Mais uma vez, o cinema quis mostrar uma faceta diferente de um personagem nazista. Só que, apesar de ela ter entrado na SS basicamente para ter um trabalho, ela corroborou com o sistema e causou a morte de prisioneiros, mesmo que indiretamente. Eu gostei muito do filme, porque decidi vê-lo sob o ponto de vista do rapaz. Ele vive uma luta interna, entre o sentimento que tem (ou teve) por ela e o repúdio por suas ações. Dessa forma, o filme fica interessante: a complexidade dele vale a pena. Somente pensar no lado do romance, aí é um filme reprovável, de fato. Infelizmente foi uma realidade do pós-guerra: descobrir o passado de pessoas com quem se convivia, e achei uma história válida. Tenho ouvido um podcast sobre caçadores de nazista, e imagina só: você vende pão há dez anos pra uma senhorinha, mas depois descobre que ela foi uma guarda num campo e que tinha o apelido de “jumenta” por pisotear os prisioneiros. Credo. Voltando ao filme, a humanização da personagem foi algo que me perturbou. O fato de ficar com dó por ela querer, mas não saber ler. A empatia pelos sentimentos dela em relação ao rapaz. Entendo a realidade da representação mas, como disse anteriormente, não é isso que queremos ver. Queremos a expiação dos crimes, da História, e não a compreensão dos indivíduos que participaram disso. Queremos Bastardos Inglórios queimando todo mundo no teatro, isso sim. Esse deve ser o único filme que eu realmente recomende nessa lista (além dos citados Indiana Jones e Bastardos Inglórios)

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o filme se chama O leitor porque ele lê para ela

Adendo: sobre Bastardos Inglórios, sempre tive vontade de ver, mas tinha receio de ser muito explícito. Fico muito abalada com certas cenas em filmes que retratam a Shoah (por exemplo, nunca mais na vida vejo O menino do pijama listrado, porque tem uma cena de espancamento que é difícil de esquecer – não esqueci). Até que uma amiga insistiu muito que eu visse, que eu ia gostar muito. Compartilhei com ela meus temores: mas não tem muita violência explícita? Ao que ela respondeu : Ah , tem um pouquinho né, não tem como não ter, mas você vai adorar. De fato, gostei muito do filme, mas fiquei contrariada que, apesar do que ela disse, uma das primeiras cenas é um cara escalpelando o outro.

*Atualização: um leitor me indicou que a cotação de relevância da Netflix é baseada nos seus gostos pessoais (o que você vê). Nesse caso, achei um sistema de péssimo êxito, porque a excelente produção Enrolados está a 66%, e o duvidoso Missão madrinha de casamento está a 79%. Ou seja, não vamos confiar nessa escala. “Algoritmos”… Não, né!

3) Lída Baarová

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Esse filme é uma afronta. Além de ser claramente ruim por si só, a abordagem que fazem do nazismo e da Shoah me fez pensar que o responsável era um simpatizante. Retrata a vida da atriz Lída Baarová, ou seja, é baseado em fatos reais. Apesar de acompanhar a vida dela, foca na história de AMOR entre ela e Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler. Primeiro que é um absurdo querer fazer uma história de amor com um dos principais nomes do movimento nazista. Ninguém quer saber se ele amava alguém ou não. Sinceramente, meus senhores. O povo quer odiar ele, e não ter EMPATIA. Além de que ele não merece que alguém tenha empatia por ele, afinal ele não teve por ninguém. Enfim, o filme também propõe que Lída realmente gostava de Goebbels. Essa é engraçada até. O filme tenta não mostrar dessa forma, mas não tem como retratar a história da moça de forma diferente… Como dizer isso… Ela era uma intere$$eira, né? Ela se apaixonaria mais por quem tivesse mais poder. Simples assim. E o absurdo é que ainda colocam o Hitler como vilão da história por separar os pombinhos!! A cena final chega a ser constrangedora. Mostra ela, uma colaboracionista desgraçada, falecendo de velha, o que é absolutamente injusto, e “reencontrando” o Goebbels, como se ele a tivesse esperado todos esses anos… E eles dançam uma valsa. Sinceramente, qual o objetivo dessa produção? “Ai, que lindo, o amor verdadeiro, ele esperou ela a vida inteira e agora eles vão poder ficar juntos, que fim lindo!”? Quem teve a ideia de fazer um filme biográfico dela dessa forma? Enfim, o roteiro é horrível, as atuações são tenebrosas, é um dos piores filmes que já vi na vida. Quase duas horas que, ao final, você pensa puxa, podia ter lavado uma louça.

4) Ele está de volta

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O primeiro filme que assisti na Netflix! Infelizmente, é o pior filme que eu já vi na vida. Até o filme brasileiro CRÔ, com Marcelo Serrado, é melhor. Nos “dias de hoje”, Hitler acorda e vai viver a vida como se fosse 1945. Tipo, “cara cadê minha guerra?”. Um jornalista (ou algo do tipo, não lembro e me recuso a procurar) o encontra e acha um barato  semelhança dele como Hitler, a forma de falar, etc. Obviamente, não acredita que seja o verdadeiro. Enfim… As coisas vão indo e esse Hitler fica famoso, vai a programas de TV, aquela palhaçada toda. Isso disseminando seus ideais, que todo mundo leva na brincadeira, achando ser um comediante. Não achei graça. Exterminar um povo inteiro é engraçado? “Ah, mas é humor negro…”. Em tempos de tanta problematização, eu acho que o conceito de humor negro pode ser um tanto quanto… condenável? Não sei se fazer piada de um dos momentos mais sombrios da história recente seja… adequado? Claro, os produtores nunca se importariam com isso. O filme é tão ruim em todos os aspectos que eu realmente gostaria de um ressarcimento financeiro.

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Se é pra ver gente confusa com tecnologia eu com certeza vou optar pela novela O tempo não para…

5) Suite francesa

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É aquela linda história de amor de um soldado nazista com uma habitante local da cidade invadida. Ué, já não falei isso hoje? É igual ao primeiro filme! O soldado é diferente. Amore, não é não e você foi uma colaboracionista, shame on you! Não preciso repetir tudo o que já disse sobre o primeiro filme. Muito me impressiona é que, na verdade, ele é baseado em um livro: um livro escrito por uma vítima do nazismo. Irène Némirovsky era francesa, de origem ucraniana, e foi morta na deportação, em 1942. Gente, coitada. Será que ela tinha esperança de que as coisas fossem diferentes? De fato, devia ser assombroso pensar que não havia um que se salvasse de ser um monstro, de que aquilo era o ser humano. Independente da história ser meio ruim, o filme também é meio ruim sim. Mas nessa lista de cinco, ele é somente o terceiro pior!

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o que a carência não faz né? coragem…


E assim termino minha listinha de filmes que passam pano para nazista. Não, não acho que a gente esteja preparado para conhecer o outro lado da história. Quando há centenas de cadáveres que foram tratados de forma tão desumana, não existe um outro lado. É imperdoável, indigno de compreensão. Hoje em dia, as pessoas ainda não conhecem a história da Shoah de forma que elas não repitam os mesmos erros. Em tempos de Trump, Front National e Bolsonaro, nós atestamos a intolerância presente ainda no século XXI. Por isso, é essencial relembrar a História constantemente, e da forma que ela aconteceu: cruel, hedionda, desumana.

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é isso que o povo quer (amo esses efeitos especiais antigos!)

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