“Dracul: a origem de um monstro”

No mês passado foi publicada a tradução (de Márcia Blaques) de Dracul: a origem de um monstro. A descrição me pescou, e hoje dou o meu pitaco não solicitado sobre.

dracul

De acordo com a editora:

O manuscrito original de Drácula, um dos maiores clássicos de horror da literatura mundial, tinha mais páginas que a versão que viria a ser publicada. Considerado “sombrio e assustador demais” para os leitores da época, um trecho foi suprimido, contra a vontade do autor. Essa primeira parte do livro nunca foi divulgada e, ao longo dos anos, apenas alguns poucos leitores selecionados tiveram acesso a ela. O atual responsável pelo espólio de Stoker, Dacre, e o escritor e roteirista J. D. Barker (Forsaken) acharam que estava na hora de contar essa história. Edição autorizada pelo espólio de Bram Stoker.

Em 1868, um rapaz teve um encontro assustador com uma criatura diabólica.
Armado com nada mais que uma espingarda velha e algumas relíquias sagradas, o então jovem de 22 anos foi capaz de manter aquela figura, a própria encarnação do mal, presa em uma antiga torre. O encontro durou apenas uma noite, e aquela foi a mais longa noite da vida de Bram Stoker.
Durante as horas de desespero, Stoker fez um apanhado de sua vida, relembrando os momentos que o levaram até ali: a infância enferma, uma babá misteriosa, as histórias de terror que ele ouvia. Enquanto isso, era tentado, provocado incessantemente pela criatura maligna, que pretendia enganá-lo para voltar à liberdade. Mas Bram deve mantê-la ali, caso pretenda sobreviver até a alvorada.

Obviamente, fiquei intrigadíssima. Eu já tinha lido Drácula e gostado horrores, então fez todo sentido para mim ler esse “prólogo perdido”. Depois de começar a leitura, me surgiu a dúvida: se essa é a primeira parte do livro que nunca foi divulgada, por que o nome de Bram Stocker, não está na capa? Afinal, ele é o escritor de Drácula. Fiz uma pequena investigação e, para a minha decepção, Dracul nada mais é do que um pastiche de ideias e anotações de Bram Stocker. O texto em si foi “costurado” por Dacre Stocker e J.D. Barker, que são, segundo consta no epílogo do livro:

Dacre Stocker é sobrinho-neto e o atual responsável pela obra de Bram Stocker. É autor de Dracula: the Un-dead. Vive em Aiken, na Carolina do Sul, EUA, com a esposa Jenne.

J.Danceny Barker é autor de Forsaken, finalista do prêmio Bram Stocker na categoria Estreante. Escreveu também os sucessosThe Fourth Monkey The Fifth to die. Vive na Pensilvânia, EUA, com a esposa Dayana e a filha Ember.

vampiro

só pra dar uma animada no texto mesmo

Para ser absolutamente sincera, me incomodou muito a editora expor o romance na descrição como sendo a primeira parte que era/é tão assombrosa que foi excluída do original. Aliás, as cerca de cem páginas realmente excluídas se transformaram em mais de 400: não tem como ser original. Relendo a descrição, nenhuma frase afirma que esse romance é parte do original, mas não se pode negar que a frase “O atual responsável pelo espólio de Stoker, Dacre, e o escritor e roteirista J. D. Barker (Forsaken) acharam que estava na hora de contar essa história. Edição autorizada pelo espólio de Bram Stoker” faz  o leitor crer que tem em mãos algo inédito do autor de Drácula.

Se eu soubesse disso, com certeza não teria comprado o livro, que aliás é caro: cerca de 60 reais em capa dura. Como li no kindle, não prestei atenção na capa, que diz inspirado  nos manuscritos. Então tá, mas ficou a um passo de enganar o consumidor!

Não vou me aprofundar na história, para não fazer nenhuma grande revelação, porém não posso deixar de aplaudir a construção epistolar, próxima à de Drácula: se o esforço foi reproduzir a escrita de Bram Stocker, nesse ponto minha amadora opinião é de que se aproximaram bastante.

Tanto Drácula quanto Dracul têm mais de um ponto de vista, entre cartas e diários. O enredo se divide em duas partes, o presente (escrito por um narrador de fora, mas não onisciente), onde Bram (que seria mais tarde o autor de Drácula) escreve em um diário sobre eventos estranhos em sua infância. O leitor tem acesso de forma alternada a essas duas narrativas, inicialmente. Na parte seguinte, a narrativa continua se alternando entre o presente de Bram e de seus escritos sobre a fase atual de sua vida – quando ele e os irmãos começam a buscar respostas para os eventos estranhos do passado. É quando outras personagens começam a surgir, assim como novos pontos de vista. Se antes víamos a história pelas lembranças de Bram, agora também temos as anotações de seus irmãos e de um amigo. A história se alterna entre relatos do presente e do passado, cada vez mais próximos, até se juntarem no mesmo momento, e aí a aventura continua de um mesmo ponto, agora presente. Em relação à essa construção geométrica, assim como em Drácula, o leitor fica absolutamente desesperado quando o capítulo acaba para alternar o relato: você quer continuar lendo aquela parte, mas volta para a outra, que na verdade estava muito animada quando acabou, e por aí vai. O livro, apesar de extenso, é extremamente empolgante, não perdendo nunca o ritmo intenso.

Os pontos negativos ficam por conta dos clichês comerciais e do final. Quando me refiro a clichês comerciais é porque, conforme você desenvolve a leitura e se surpreende, a surpresa é sempre “segunda”: já vi algo parecido assim antes. Nunca inédita, apesar de parecer em um primeiro momento. Como eu já li Drácula, eu imagino que essa ideia de “já li isso antes” venha daí: Dracul conta uma aventura sobrenatural de Bram Stocker, que teria sido a inspiração para escrever o clássico Drácula. Talvez a sensação de “já vi isso” seja por conta de fatos que podem ser repertoriados nos dois romances. Minha decepção com o final é por conta de algo muito simples: o livro te bombardeia de perguntas durante 400 páginas, para não responder praticamente nenhuma. Isso não significa que as pontas das narrativas não se unam e não se expliquem por si mesmas, mas ainda assim sobram dúvidas. Não posso expô-las aqui, porque seria a festa do spoiler. Se o objetivo era justamente deixar essas perguntas sem respostas, do tipo “há tantas coisas ocultas no mundo que não conseguimos responder tudo, afinal é uma história verídica”, não deu certo. No século XIX, a história do conde Drácula poderia se passar por verídica – haveria os que acreditassem e os céticos -, mas em pleno século XXI, após o maravilhoso advento da internet, é um pouco complicado bater tanto o pé afirmando que tudo isso é real.

gato-vampiro-uma-celebridade-no-instagram

o gato vampiro @monkandbean

Dracul também faz a interação entre a história de Bram personagem com Bram autor: um dia, trabalhando, ele recebe a visita de Mina Harker – personagem de Drácula – que lhe entrega um extenso manuscrito:

“Mesmo quando comecei a ler, enquanto virava cada uma das páginas e lia as palavras dela, eu não queria acreditar. Afinal, fazia tanto tempo. […] Pensei naquelas frases por um momento, então fechei o manuscrito e me peguei encarando a primeira página, para as duas palavras escritas bem no meio: CONDE WAMPYR. Peguei uma caneta e risquei a palavra Wampyr, substituindo-a por Dracul, e depois acrescentei a letra A no final, […]. Então os papéis foram para minha bolsa de couro. Eu não estaria aqui quando a sra. Harker retornasse amanhã, e talvez fosse melhor. […] Alguns diriam que foi obra do destino ela me encontrar agora, quando estou prestes a partir e começar a escrever um novo romance, um novo romance sobre algo muito antigo – um mal entre nós, uma verdade do tipo mais incompreensível.”

Vou ser sincera. Eu percebi que o objetivo era não somente validar a narrativa de Dracul como verídica, mas também a de Drácula. Infelizmente, nem sempre a gente atinge nossos objetivos, não é mesmo? O que pareceu foi que Bram Stocker seria um autor medíocre e que teria roubado de Mina Harker uma história que, verídica ou não, fora fornecida por ela. Se eu fosse ele, eu ficaria bem bravo com meus descendentes de tripudiarem em cima da minha reputação.

O romance é do gênero horror, e eu realmente fiquei meio apreensiva em alguns pontos. Na verdade, li em uma reportagem que os direitos já foram vendidos para o estúdio Paramount, ou seja, vem filme por aí. Talvez os autores já tivessem isso em mente, porque diversas cenas eu já podia enxergar como sendo mais de um filme que de um livro. Como se fossem “cenas para dar susto” ao invés de “cenas para instigar ainda mais a história”.

Ao término do romance, há um pequeno relato dos escritores sobre a pesquisa nas anotações de Bram e a escrita do texto. Eu esperava que isso me esclarecesse o que era “real” e o que era “ficção”. Como o romance usa como personagem o escritor real de Drácula e sua família, minhas dúvidas eram não sobre os eventos sobrenaturais, mas sobre dados básicos: eles moraram em Dublin? Seu pai trabalhou no castelo? Ele era doente? Os nomes estão corretos? Coisas simples. Esse posfácio mais confunde do que explica. Assim como a descrição da editora, as informações são truncadas, provavelmente para fornecer uma “explicação sem explicar nada”. Não fica claro se Ellen Crone de fato é o nome de uma babá que a família teve, ou se é uma peça incluída  somente por conta da narrativa. Também não há nenhum tipo de indício que possa esclarecer o que é das anotações de Bram e o que é da inspiração dos autores. Não acho que essas informações poderiam descreditar o romance, pelo contrário.

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Nosferatu (1922)

Conclusão, vale a pena gastar tempo e dinheiro com Dracul?

Vale! Leia sem grandes pretensões, afinal, é um livro bem comercial, mas que entretém bastante.

Pontos fortes: construção de narrativas alternadas, que mantém o ritmo e a intensidade do romance altos.

Pontos fracos: não há grande ineditismo e pouca resposta para as perguntas levantadas.


Prosa do Gato: “você viu que a Netflix vai lançar uma série baseada em Drácula? Ainda sem data prevista, dá tempo de você ler o romance para se preparar para a estréia!”

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sirva-me, humano

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4 comentários sobre ““Dracul: a origem de um monstro”

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