Retrospectiva literária: 2018

Pois bem, 2018 chegou ao fim e eu deveria ter postado a minha retrospectiva literária em dezembro… Mas que mês agitado, não é mesmo? E ficou por isso mesmo. Independente disso, vou sim fazer minha retrospectiva literária com o pé em fevereiro.

De forma geral, posso concluir que já tive anos com leituras melhores… Mas vida que segue.

Os livros estão em ordem cronológica de leitura, menos quando é do mesmo autor. Nesses casos, juntei em um só tópico, porque sou preguiçosa.

1- Assassinato no beco e outras histórias; Agatha Christie

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Quatro contos do Poirot: Assassinato no beco; o roubo inacreditável; o espelho do homem morto o triângulo de Rodes. Vou ser sincera, não lembro das histórias. E eu adoro isso! Já li tantas histórias da Agatha Christie que, se eu quiser reler, vai ser como se fosse a primeira vez: serão infinitas! Se eu não lembro, é porque eu gostei – não amei, mas também não desgostei. Quando eu não gosto, fico indignada, e por isso não esqueço o título.

2- O médico e o monstro; Robert Louis Stevenson

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Um conto absolutamente delicioso. O fato de eu saber o desfecho não prejudicou em nada a experiência. Este livro é um clássico que já foi explorado em diversas mídias, então é muito difícil fugir de “spoiler”. Mesmo assim, recomendo muito! Inclusive, preciso fazer um post defendendo arduamente o porquê de clássicos serem clássicos.

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A personagem do filme de 1931 me lembrou muito…

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… essa personagem da novela A escrava Isaura (Record)!

3- Relações perigosas; Choderlos de Laclos

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Esse livro nem deveria estar nessa lista, porque foi uma releitura. Mas coloquei porque eu não havia lido esta tradução. Fiz uma resenha mais completa aqui. Na verdade, não tenho como não recomendar este livro… É meu objeto de estudo no mestrado, e quanto mais me aprofundo nele, mais acho excelente. Leia qualquer tradução – da Penguin, Globo, ou qualquer outra que encontrar -, menos a tradução da L&PM. Acredite em mim, esse é o melhor conselho que você irá receber.

4 e 5- Odorico na cabeça; Sucupira ame-a ou deixe-a; Dias Gomes

Encontrei esses dois livrinhos num sebo e fiquei maluca. Nenhum personagem nunca, em nenhum momento na história mundial da literatura, irá ter uma retórica mais perfeita que a de Odorico Paraguaçu. Sim, é arriscado usar afirmações absolutas, porém estou com a consciência tranquila. Enfim, os dois livrinhos contêm pequenos contos engraçados sobre a rotina de Sucupira. Vale a pena, com certeza, pura delícia!

6- O caminho das estrelas; Maria Lúcia Marinzeck de Carvalho

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Esse é um livro espírita, psicografado por Maria Lúcia e escrito pelo espírito Antônio Carlos. Comprei na Bienal do Livro de 2016 para pegar um autógrafo da Maria Lúcia. É muito complicado indicar esse livro para quem não é espírita. De qualquer forma, apresenta uma história simples que instrui o leitor dos conceitos básicos da doutrina espírita. Se você estiver interessado em conhecer mais sobre o espiritismo e quiser começar por um livrinho, aconselho mais Violetas na janela (também de Maria Lúcia, pelo espírito Patrícia). Ambos os livros apresentam a jornada de descoberta de espíritos que acordam no mundo espiritual após terem desencarnado.

7- Lady Susan; Jane Austen

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Uma deliciosa novelinha epistolar. Inclusive, senti muito da marquesa de Merteuil (de Relações perigosas) na Lady Susan. Leve, curto e adorável, um ótimo passatempo. Essa novela foi retratada no filme “Amor e amizade”:  o filme não é digno de Oscar, mas dá pra se entreter. Recomendo sim, assim como todas as outras obras de Austen (tem um post sobre ela no forno).

8- Os mortos; James Joyce

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Complicado de dizer… Para ser sincera, eu lembro muito pouco dessa novela. Relata uma noite de festa na casa de uma família: acabei a leitura com cara de . Não desgostei do livro, mas também não foi uma experiência prazerosa de leitura.

9- Les confession du comte de ***; Charles Duclos

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Li esse romance por conta do mestrado, pela sua influência na construção da trama Valmont-Merteuil. É um romance epistolar libertino, onde a personagem relata a um amigo suas conquistas. Gratuito em francês, é uma leitura leve e interessante, principalmente por ilustrar o estilo de vida dos aristocratas libertinos na corte francesa do século 18.

10 e 11- A terceira moça; Cipreste triste; Agatha Christie

A terceira moça apresenta uma trama relativamente simples na extensa obra da Agatha Christie: digo simples por não ter aquele elemento que a torne absolutamente especial, como em o caso dos dez negrinhos (e não sobrou nenhum…). Entretém perfeitamente, porém é facilmente esquecível. Já Cipreste triste eu gostei bastante, talvez esteja entre os livros de Agatha que mais gostei. A trama policial em si também não é genial, mas há uma pitada a mais de romance nesta história que a torna única.

12, 13 , 14, 17 e 18- A mulher sem pecado; Valsa n. 6; Viúva, porém honesta; Anti-Nelson Rodrigues; Anjo Negro; Nelson Rodrigues

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Comprei numa promoção do kindle o teatro completo de Nelson Rodrigues, e fui lendo conforme a disposição que a compilação apresenta: peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas. As três primeiras peças que li se enquadram como peças psicológicas. Ler Nelson Rodrigues é aquela coisa né… Você nunca sabe o que vai encontrar, só sabe que vai ser um ponto fora da curva. Assim, houve peças que gostei mais do que outras e, de forma geral, recomendo a leitura, principalmente pelo movimento rodriguiano de contestação social. Eu estava seguindo a trilha da coleção completa num ótimo ritmo, mas precisei de uma pausa após ler Anjo Negro (a única peça mitológica dessa lista): foi um pouco forte até para mim. Não me espanta que o autor tenha sido tão duramente atacado em 1948, o que resultou na interdição da peça. As peças de Nelson Rodrigues apresentam, em geral, um retrato da família brasileira, mas no melhor estilo por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

15- Os grandes julgamentos da história: volume I (os processos dos venenos/ landru); Claude Bertin

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Achei esse livro na biblioteca do meu avô e, muito influenciada pela literatura policial, fiquei ouriçada com a palavra “venenos” no título. Na verdade, faz parte de uma coleção de origem francesa, e a tradução é sofrível. Em alguns trechos é facilmente perceptível o original, porque em português fica sem sentido. Mas ao fim e ao cabo, dá para entender a história sem grandes perdas, porque é um relato histórico. Apresenta o que foi a sequência de processos contra diversas personalidades aristocráticas na França, século 17, acusadas de envenenamento. E não pense que eram fatos isolados! Parece que a sociedade estava viciada em envenenar seus desafetos: quanto mais os processos andavam, mais nomes importantes apareciam, a ponto do rei ter de interferir e passar aquele pano. Sim, você já viu isso em algum lugar. O relato seguinte é de Landru, e foi mais recente, no século 20. Este homem buscava nos anúncios de jornais uma companheira já viúva e, depois de sair com ela por um tempo, convidava-a para sua casa numa cidade bucólica, para onde deveria se mudar em breve. Com promessas de casamento, elas aceitavam, e nunca mais eram vistas. Ao descobrir o elo comum entre todas as mulheres, a polícia fez um verdadeiro circo vasculhando a casa, mas não encontraram nada muito conclusivo. Aparentemente, ele as matava, roubava seus bens (principalmente móveis) e se desfazia dos corpos no forno a lenha. Landru foi um dos últimos homens a ser guilhotinado na França, e sua execução foi testemunhada por convidados selecionados – incluindo a escritora Colette. Isso que é ser vip! O livro contém algumas fotos, e imagino que deva ser encontrado somente em sebos. A história deste assassino também foi adaptada para o cinema em 2005, no filme francês Désiré Landru. O processo dos venenos também foi (livremente) abordado na segunda temporada da série Versailles, disponível na Netflix, e no filme La marquise des ombres, de 2009.

16- Variações em vermelho; Rodolfo Walsh

Livro de contos de Rodolfo Walsh, escritor argentino assassinado pelo regime militar (argentino, no caso). Sua obra contém cinco contos policiais e é marcada por uma crueza que eu até então não estava acostumada. Apesar de Walsh não ser tão conhecido no Brasil, ele é um dos escritores de maior renome na literatura argentina do século XX. Além disso, a tradução da editora 34 é primorosa, e eu adoro essa capa, porque gosto de por a mão em cima.

19- Notre-Dame de Paris; Victor Hugo

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Com certeza o melhor livro que li no ano. Clássico é clássico e a fama se justifica.  Apesar de ser longo e ter descrições intermináveis (o que eu não gosto muito), a trama é excelente e o estilo magistral. Na minha opinião, o que mais torna esse livro único é a extrema profundidade psicológica das personagens. O leitor acaba as conhecendo tanto e tão bem que é impossível amar ou odiá-las. Tirando o Phoebus, esse dá pra odiar do início ao fim. Quando a narrativa se infiltra na mente de uma personagem, é possível conhecer perfeitamente todos os seus medos, angústias e desejos. Não tem como odiar alguém que você cria tanta empatia… Mas aí a personagem faz algo que, narrado de outro ponto de vista, dá raiva! Bem, esse livro ganhou não somente o  (meu) prêmio de “mais proximidade com personagens”, mas também o conceituado prêmio “romance que mais chorei”. Sim… Infelizmente, há um trecho que chorei copiosamente, a ponto de ter de interromper a leitura e me recompor. Por pouco não abandonei o livro, mas achei que seria um remédio mais eficaz superar a parte que me partiu o coração e descobrir o que iria acontecer em seguida. Ainda bem, porque meu coração foi colado novamente. Enfim, a história em nada se aproxima com o desenho da Disney, caso você o tenha visto. O conceito de “livremente” adaptado aqui exige toda uma reformulação na definição de liberdade. Inclusive, o desenho será adaptado para o formato live action. Estou ansiosíssima para madrugar na fila do cinema e passar raiva com o filme! Aliás, falando em adaptações, esse romance foi uma das peças de maior sucesso na França nos anos 90. A trilha sonora é lindíssima e, na verdade, eu tive interesse em ler o livro por conta dessa música.

20- Dracul, a origem de um monstro; Dacre Stocker & J. D. Barker

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Fiz uma resenha neste post.

21, 22 e 23- Dragão vermelho;  O silêncio dos inocentes; Hannibal; Thomas Harris

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Vamos por partes. Em um domingo preguiçoso, assisti ao filme O silêncio dos inocentes, e fiquei muito, mas muito mesmo, ouriçada para saber mais desse serelepe psicopata. Comecei com o primeiro livro da franquia, pois é um crime ler fora de ordem, convenhamos. Tanto em Dragão Vermelho, quanto em silêncio dos inocentes, a narrativa central é acerca da investigação de assassinatos por um serial killer, e o famoso psiquiatra Hannibal Lecter aparece de forma homeopática, dando pitacos sobre os crimes, ajudando, assim, os investigadores a encontrarem os assassinos. No primeiro livro, o investigador é Will Graham, o mesmo que capturou Lecter anos antes. Graham é um personagem muito interessante, porque ele é perturbado pelo que chamam de empatia pura: ele conseguiria ter empatia pelos assassinos, identificando quais teriam sido suas motivações e movimentos. Os dois romances policiais também não escondem em nenhum momento quem são os assassinos, abordando sua história de vida e detalhando os momentos que antecedem os assassinatos. Infelizmente, em O silêncio dos inocentes, a investigadora é Clarice Sterling, uma estudante da academia do FBI sem qualquer personalidade. Por que Hannibal se interessou tanto por ela? Não dá para entender, só pode ser liberdade poética mesmo. Ao contrário de Graham, ela não tem grande apelo psicológico, e somente serve como fio condutor da história. Inclusive, seus avanços na investigação são ou devidos à Lecter ou obra do acaso… De qualquer forma, a trama policial é interessante, e os dois filmes são fiéis às narrativas. O terceiro romance, Hannibal, é uma continuação dos eventos apresentados no livro anterior, mas, apesar disso, é possível ler os três romances de forma independente sem grandes perdas. Enfim, eu não sei o que aconteceu. O autor teve um bloqueio criativo? Sentiu-se pressionado pelo sucesso do filme? Simplesmente não tinha talento suficiente? A verdade é que Hannibal é um dos piores livros que já li na minha vida inteira. Talvez seja o pior. Sinceramente, eu detestei O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, mas não se pode negar que o livro tenha um bom estilo: eu só não gostei da história (e odiei Dorian). Agora, em Hannibal, o desastre está por todo lado: as personagens não se sustentam, a história é rocambolesca e o estilo é pobre, mal se nota. Sobre isso, vamos por partes. As personagens não se sustentam: novamente temos Clarice Sterling, novamente sem nenhuma personalidade. O fato do autor explorar em demasia o seu passado traumático não acrescenta em nada na personagem em si. Seu pai poderia ou não ter morrido, isso não faria diferença nenhuma na construção da personagem. Ela poderia ou não ter sido criada em um orfanato, tanto faz, suas atitudes seriam as mesmas. A grande decepção é em relação a Hannibal. Esta personagem não se assemelha em absolutamente nada com o psicopata dos dois primeiros livros. O autor com certeza sentiu necessidade de explorar mais a personagem que rendeu um Oscar à Anthony Hopkins, mas acabou por desfigurá-lo. O temível canibal, brilhante psiquiatra, inatingível ao arquitetar com sucesso sua fuga, passa a se mostrar vulnerável, humano, cheio de emoções. Ele sente saudades da irmã, que lindo, ele se atrai por Clarice, que fofo, ele tem traumas de infância, coitadinho! Sim! Vamos perdoá-lo! Ele não é esse monstro horrendo sem humanidade alguma que o injusto FBI pintou! Sinceramente? Esse desdobramento psicológico foi vergonhoso. Tenho pena de Hopkins. Sobre a história ser rocambolesca, não há muito o que dizer: dividido em quatro partes, a trama ensaia diversos clímax, sem atingir nenhum. Além disso, existem capítulos e mais capítulos absurdamente dispensáveis, o que me fez pensar que o autor recebeu por página. Toda a narrativa relacionada à família Verger flerta com o tosco, apesar de visivelmente buscar atingir uma crueza aterrorizante. O autor deveria ter lido Rodolfo Walsh… Enfim, apesar de Dragão vermelho e O silêncio dos inocentes despertarem um desejo latente de conhecer mais sobre o Dr. Lecter, não caia na cilada de fazê-lo por meio de Hannibal. Ficou curioso com o que acontece com esse psicopata pimpão após O silêncio dos inocentes? Procure um resumo na Wikipédia, é a melhor coisa que você pode fazer. E esse é o melhor conselho que posso dar (de novo).


E assim encerro a retrospectiva literária de 2018!  Vamos ao resumo:

Prêmio de melhor livro de 2018: Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo.

Prêmio de pior livro de 2018: Hannibal, de Thomas Harris

Prêmio de livro que mais me fez dar risadinhas sapecas (todos os anos): qualquer um com Odorico Paraguaçu, de Dias Gomes.

E para você, quais livros levariam esses prêmios?

Um comentário sobre “Retrospectiva literária: 2018

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