Um causo do interior (conto)

Eu estava muito de férias, quando meus avós decidiram passar uns dias no seu sítio, no interior do estado. Assim, fui junto. Os dias seriam tranquilos, à base de doce de leite e pão de queijo, como sempre tinham sido.

Logo no segundo dia, eu percebi que a Dodô estava angustiada. Era uma senhora, muito religiosa, que trabalhava de cozinheira ali havia muitos anos. Fui assuntar para ver o que se passava: corria o boato de que havia um lobisomem na região, o que eu achei engraçadíssimo. Não é que a cidade fosse tão interiorana assim para que esse tipo de folclore ganhasse fôlego… Entretanto, o sítio ficava numa região afastada, cercado por uma infinidade de plantações das outras fazendas. Também, a tecnologia ali era meio precária, um lugar ótimo para fazer o detox digital do qual eu precisava. Enfim, Dodô tinha sido criada ouvindo todas essas histórias que correm onde Judas perdeu as botas… Era uma pessoa muito boa, claro, mas que, como muitos ali, não tinha tido grande oportunidade de estudar. Achei que esse panorama sócio-cultural da região era mais do que uma justificativa plausível para a força do boato.

Tentei tranquilizá-la, dizendo que essas coisas não existem, etc… Mas não havia jeito de acalmar a mulher. Então, busquei uma alternativa na sua própria crendice:

– Mas Dodô, hoje nem é dia de lua cheia! – ao falar isso, eu não fazia ideia de que lua seria, mas havia só uma em quatro chances de errar.

A mulher balançou a cabeça e disse:

– Isso eu já num sei, filha. Mas hoje é quarta… E aqui a coisa é de quarta pra quinta.

Retruquei, indignada:

– Oxi! Como assim de quarta? Sempre é em sexta de lua cheia, tá em filme e tudo mais! Não pode ir mudando assim, não!

Tendo ela insistido, desconversei e fui para meus compromissos (deitar na rede).

Talvez eu tenha ficado sugestionada pelo que a Dodô falou? Não sei, mas naquela noite eu custei a dormir. Tive um sono agitado, me revirando na cama a toda hora.

Pesadelei que acordava com o uivo agourento do lobisomem. Foi muito estranho, porque tudo estava igualzinho a realidade, o mesmo quarto, a janela aberta, a brisa da noite, tudo. Mas continuando… Depois do uivo, eu levantava e, para me assegurar de que era só um cachorro do mato ou algo assim, ia dar uma espiadela na janela.

Foi quando eu vi, pelo amor de Deus, o que seria uma coisa enorme, meio lobo, meio gente… Seria um lobo, se os lobos tivessem uma postura de Quasímodo; ou um homem, caso ele tivesse um grave problema capilar no corpo todo. A luz do luar iluminava seus dentes afiados, por entre os quais escorria uma espuma esbranquiçada (que nojinho!). Atônita, exclamei um muito apropriado Meu Deus!– talvez tenha sido um Jesus!, mas isso não importa –, o que se mostrou uma péssima ideia, já que o treco olhou para mim com seus olhos vermelhos brilhantes e, claro, resolveu ir em direção da janela.

Teria sido o momento ideal para eu me lembrar de que aquilo não passava de um sonho, que bastava eu acordar. Mas não… Então, fiz a única coisa que estaria ao meu alcance: corri para a cômoda ao lado da cama e peguei o vidrinho de água benta, que era tão somente um souvenir que vovó tinha trazido do Vaticano. Ou seja, junto com outros cacarecos aleatórios, era meramente decorativo (e cujo conteúdo possivelmente provinha da pia de algum vendedor sabichão).

Foi um pulo até a cômoda e outro de volta até a janela, abrindo o vidrinho ao mesmo tempo e jogando a águinha pela janela, num instintivo movimento do sinal da cruz.

Foi um furdunço total. A água respingou toda bem no canto da cara do bichão, que saiu quicando e granindo pasto adentro.

Com certeza, tudo aquilo foi uma peripécia do meu subconsciente mancomunado com a dona Dodô, mas pareceu bem real… Desnecessariamente, anormalmente real para um sonho. Lembro até de estar voltando para a cama, assustada, rezando e pedindo proteção…

Pela manhã, acordei cozinhando sob o sol que entrava pela janela, exausta e encharcada de suor.

Pensei no meu pesadelo e olhei ao redor, notando o vidrinho de água benta no chão, vazio. Achei estranho… Concluí que, na minha agitação noturna, eu devo ter batido na cômoda e ele caiu, claro. Só que, se vidro não estava quebrado, como ele poderia estar vazio? Claro, a tampinha deve ter se soltado, com certeza.

O dia estava lindo e eu decidi esquecer a noite passada. Claro que a Dodô quis falar de novo daquele assunto mas, no primeiro você ouviu alguma coisa ontem à noite?, eu escapuli para o pomar, dizendo que minha avó me esperava (o que era verdade).

Acontece que vovó vinha se queixando de um mal-estar e, dada a persistência, vovô mandou chamar o médico da cidade, o Doutor Batistinha.

Ele chegou como que se arrastando, pálido, olheiras enormes, um farrapo mesmo. Sem explicação, a lembrança do meu sonho atravessou meu espírito, fiquei arrepiada. Quando ele se virou, percebi que ele estava com várias pequenas queimaduras na lateral do rosto, uns tufinhos do cabelo ruivo chamuscados perto da orelha… Como alguém que fritasse um ovo e o óleo explodisse na sua cara várias e várias vezes. Contive um risinho ao imaginar a cena. Eu disfarcei, mas ele percebeu o que eu estava olhando e, remexendo na sua maleta, ficou de costas para mim. Fiquei meio envergonhada da minha bisbilhotice, por isso, fui para a sala. Logo meu avô apareceu dizendo que voltaríamos para a capital, porque a pressão de vovó estava ruim e seria melhor se consultar com o seu médico “oficial”.

Anos depois, quando voltei ao sítio, já nem me lembrava da história do lobisomem. Não perdi tempo e logo fui roubar um pedaço de bolo de fubá com café preto. Encontrando a Dodô, perguntei:

– Fala Dodô, quais as novidades por aqui?

– Então… Lembra do lobisomem?? – disse, ansiosa.

Essa mulher definitivamente estava obcecada com essa história. Respondi, sem saber direito onde aquilo iria dar:

– Ahn… Sei, o que tem ele?

– Morreu!! – ela estava radiante.

Ao ouvir isso, engasguei com o farelo de bolo. Será que tinham encontrado o bichão estirado e empacotado, totalmente adefuntado e empresuntado? Nem precisei perguntar, ela já foi logo explicando:

– Minha filha, chegou um padre novo aqui na cidade que olha, vou te contar, esse sim é um homem de Deus! A gente contou pra ele tudo, tudo, e ele disse que ia resolver essa pendenga. Achei o quê? Que ele fosse ajuntar uns homens pra ir atrás do diabo, né? Nada! Teve uma quarta-feira que tava armando um toró, mas um torózão… Pessoal até botou os boizinhos pra dentro e tudo mais. Aí, depois da última missa já tinha começado a respingar, sabe? Mas ainda não era o grosso mesmo. O padre juntou seu rebanhinho mais fiel e pediu que a gente ficasse lá mais um pouco. Quando foi quase meia-noite, a gente foi tudo pra porta da igreja e ele começou a benzer a chuva, que já tava forte, né?, pedindo pra Deus livrar a gente desse mal. Olha que foi bonito, viu!

Eu nem sabia o que dizer ante a um relato tão inóspito. Pisquei duas vezes, meio embasbacada. Ela finalizou:

– E desde então o demônio nunca mais apareceu!!

Eu ainda não sabia o que pensar, mas ela estava tão, tão feliz, que eu não poderia duvidar do que ela acreditava tão piamente. Portanto, me mostrei aliviada, louvando a esperteza e santidade do padre. Depois refleti que, ao fim e ao cabo, se o troço existiu mesmo, pelo menos não existia mais; se não existiu, então ficou sem existir de vez.

No dia seguinte, vovô recebeu uns amigos da região para o almoço. Como eles falassem de assuntos que eu nem tinha conhecimento nem interesse, restringi a minha ilustre participação na conversa. Eu estava com a cabeças nas nuvens, quando ouvi um nome que me chamou a atenção:

– … atrás da antiga clínica do doutor Batistinha, sabe?

Sem perceber, passei a prestar atenção na conversa. Alguém disse:

– Puxa, foi uma fatalidade mesmo!

O quê? O que foi uma fatalidade?? Felizmente, minha avó perguntou antes de mim. Explicaram, ele havia morrido:

– Foi bem no dia daquele pé d’água, puxa que foi uma beleza pra plantação… Não sei bem como aconteceu no meio daquela chuvarada toda, mas a clínica dele pegou fogo, queimou tudinho, não sobrou nada, nada… Foi aquela correria pra apagar, todo mundo ajudando, mas não havia meio do fogo parar. Era jogar água pra apagar, dali a pouco recomeçava. Nunca vi coisa assim, parecia que tava até chovendo gasolina.

Todos os convidados concordavam, acenando com a cabeça.

– Só quando a chuva parou que a gente conseguiu domar o fogaréu. Depois a gente encontrou ele lá dentro… Coitado, uma coisa horrível, malemal dava pra dizer que era ele… O dentista que teve que fazer o reconhecimento, sabe? Num sobrou Batistinha suficiente nem pro caixão…

A conversa foi cortada com a iminente chegada de dona Dodô com o cafezinho, e logo se falava de outra coisa.


Conto escrito por Laís Zampol Dell’ Antonia, em 22/04/2019.

3 comentários sobre “Um causo do interior (conto)

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