É preciso coragem para amar?

Quando eu estava estudando para o vestibular, me deparei com o seguinte poema de Joaquim Manuel de Macedo:

Mulher, irmã, escuta-me: não ames.
Quando a teus pés um homem terno e curvo
jurar amor, chorar pranto de sangue,

não creias, não, mulher: ele te engana!
As lágrimas são gotas de mentira
E o juramento manto da perfídia.

Eu, como ótima irmã que sou, escrevi o poema em um papelzinho e dei para a minha dramática irmã, que estava sofrendo as dores da juventude. Já faz quase dez anos, e ela ainda o tem em seu quarto, à vista, na estante.

Se você não é muito de poema ou prefere algo mais moderno, temos a versão adaptada de Manoel Bandeira:

Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
Se ele se ajoelhar
É lágrima de cine
É tapeação
Mentira
CAI FORA.

Não pude deixar de rir com esse CAI FORA.

Um poema é do século 19, o outro, do 20. E, ainda assim, tão atuais!

É mais ou menos isso que eu quero falar hoje. Mas não sobre ser enganada, mas sobre se enganar. Ninguém consegue argumentos tão bons para nos convencer quanto nós mesmos. E é por isso que o título desse artigo é preciso coragem para amar?

Tenho certeza que deve haver toneladas de textos sobre esse tema. Devo confessar que não entrei em contato com nenhum deles recentemente para dar o meu pitaco deliciosamente não solicitado.

O causo é o seguinte: eu conheci um cara e me apaixonei perdidamente.

Ele era atencioso e demonstrava ter interesse em mim. Mas, ele deixou claro que não pretendia entrar em um relacionamento, porque tinha se magoado muito no anterior.

O que eu fiz? Insisti em manter aquele nosso relacionamento casual, porque acreditava poder curar suas feridas e conquistá-lo, já que era esse o empecilho.

O que aconteceu? Ao invés de curar, eu que adoeci! Sofri muito, contudo, em um dado momento, eu abri mão daquele “relacionamento” para priorizar a mim mesma. E cá estou eu, sã e salva. Ufa!

Você percebeu qual foi o meu erro? Ele esta logo ali, em negrito.

Mas,

Esse foi o erro. Houve um mas, que eu não respeitei. E por isso, eu me desrespeitei. Desrespeitei, ultrajei o meu amor-próprio. Tsc, tsc.

Eu acreditava piamente que, não fosse a ferida que ele trazia do relacionamento anterior, ele iria se apaixonar por mim, iriamos viver um lindo romance novelesco e seriamos felizes para sempre. Se ele tivesse tido a coragem de se entregar à mim, eu teria feito ele feliz, não teria cometido os erros que sua ex-namorada cometera e todas essas ideias ilusórias que a paixão sugere. Esse é o momento perfeito para falar: ledo engano. Adoro essa expressão!

Ele não era um covarde por ter medo do que quer que seja, eu é que fui uma iludida… Só que não foi ele que me iludiu, fui eu mesma!

A verdade é que não teria mudado em nada se ele tivesse tido essa coragem, ou se ele não tivesse sido magoado anteriormente. Ele não teria se apaixonado por mim em nenhuma situação hipotética, porque ele não se apaixonou por mim na situação real.

É muito difícil assumir a culpa. Ninguém quer assumir a culpa pelo próprio sofrimento. Nesse caso, é preciso coragem, e muita, para enxergar a verdade. Para afastar a inebriante névoa das expectativas. Expectativas essas que eu criei baseadas numa idealização.

Talvez você esteja reconhecendo essa história. Isso já aconteceu, você está se lembrando. Com um amigo que você via que a névoa era tão densa que te faltava coragem de dizer CAI FORA! Ou mesmo com você… Tudo bem, acontece, c’est la vie!

Faltou-me coragem para pegar os fatos e dar-lhes o seu devido peso… o peso da realidade.

O rapaz pelo qual me apaixonei disse que gostava de mim, mas que não queria um relacionamento. E ele era atencioso comigo, nós conversávamos muito por mensagens, mas só em horário comercial. Não, não era nenhum problema de não ter como me responder nos finais de semana. Eu não me lembro bem de outros exemplos, porque isso já faz alguns anos, mas isso já é suficiente para ilustrar que bem, os indícios estavam todos ali, eu que não queria ver. Aliás, eu via. Mas eu não pesava-os corretamente. O peso de ele ter sido atencioso o suficiente para lembrar que eu gosto de chá e me comprar uma caixa para eu tomar com ele tinha um peso absurdamente maior do que o fato de ele não me responder à noite ou aos finais de semana. Eu relevei essa ausência, mesmo que me magoasse, e supervalorizei a história do chá. Só que a verdade era que, por mais atencioso que fosse, um chá era só um chá para ele. Não era uma declaração oculta de uma paixão medrosa. E a bem da verdade, eu acabei tomando aquele chá sozinha (e isso não é uma metáfora, mas poderia). E aquela ausência não era cansaço, era a simples falta de vontade de conversar comigo.

Ao inverter o peso dos fatos, eu me iludia, tinha esperanças no nosso final feliz. E sabe de uma coisa? Eu estava tão enfeitiçada pela narrativa cinderelesca da minha cabeça, que nem percebia que aquele relacionamento nunca daria certo. Como eu sei disso hoje? Porque depois que a paixão passou, eu enxerguei a realidade: a gente podia se dar muito bem juntos, ele podia me envolver com seu charme, só que a gente não tinha nada em comum. Nossos hobbies, gostos, interesses… não eram os mesmos. Eu mal consigo acreditar como nós conversávamos tanto! Basicamente, a gente comentava sobre fatos cotidianos, e nosso humor era muito parecido.  Eu não vou mentir. Eu não tenho quase nenhuma experiência com relacionamentos, mas, pelo que eu vejo, isso não é o suficiente para sustentar o interesse e, sobretudo, a admiração pela outra pessoa. E não tem amor nenhum que dure sem admiração.

Eu deveria ter ficado mais atenta aos fatos, ao invés de ficar mirabolando sobre sinais. Se você for um leitor adolescente, desconsidere o que vou dizer (porque adolescente é meio confuso mesmo em suas prioridades)… Bem, fato é fato, e sinal só é sinal na sua cabeça (e na cabeça da sua amiga esotérica).

Se ele diz que não quer um relacionamento, aceite: ele não quer um relacionamento com você. Por mais doído que seja ouvir isso, aceite. Esse é o único caminho para a paz interior. Dizer que ele é gay enrustido, covarde, cafajeste ou o que quer que seja não vai mudar a situação, vai? Essas justificativas podem até diluir a dor pela raiva, mas não ajudam muito a superar a coisa toda, palavra!

Enfim, o rapaz da minha história não queria um relacionamento… comigo. Porque dois meses depois ele estava, sim, namorando outra pessoa.

Alguém com o mínimo de experiência (mesmo eu!) pode até não saber o que quer, mas com certeza sabe o que não quer. E no caso, ele não me queria para um relacionamento. Ai, Narciso, me defenda dessa ofensa!

Pois então, é preciso sim muita coragem para amar… É preciso coragem para enxergar quando não se é amada pelo outro; é preciso coragem para aceitar e, ainda assim, amar a si próprio. É preciso ainda mais coragem para priorizar o seu amor por si mesmo, abaixar a cabeça e falar: eu me apaixonei pela pessoa errada, ninguém sabe o quanto eu estou sofrendo! É preciso coragem para abrir mão de todo o tempo e energia gastos com essa luta inglória. É preciso coragem para recomeçar do zero! É preciso coragem para assumir que a culpa não é dele ou sua, e mesmo para admitir que não existe culpa. Existe a vida, e ela é assim. Sempre foi, sempre será.

Você sabia que, no caso de receber uma flechada que não atravesse o corpo, não se pode puxá-la de volta? Pelo formato de seta da ponta, o resultado seria muito pior do que afundar a flecha no corpo até que ela saia pelo outro lado. Horrível, não é? Então… É preciso coragem para se ferir ainda mais, sentir uma dor ainda mais lancinante para poder, finalmente, se curar. Deixar a flecha como está, fingindo que ela não existe, não vai ajudar, ao contrário… Vai infeccionar, gangrenar, e Deus sabe lá o que mais. Se puxar de volta, por onde entrou, a ferida já feita vai ser dilacerada e ficar muito maior. Não recomendo. Dor por dor, menos mal a que vai curar melhor, não é?

Claro, ninguém quer levar uma flechada! Se você levou, eu sinto muito pela sua dor… Mas tenha força, coragem e sangue-frio para livrar-se dela (isso é uma metáfora sim, mas poderia não ser).

E, caso você precise, leia Como superar um coração partido.

 

Este tema se estende à responsabilidade afetiva, sobre o que pretendo pitacar no próximo artigo. Espero que seja em breve, mas não prometo nada.

5 comentários sobre “É preciso coragem para amar?

  1. Davi disse:

    Li o texto e só me vinha uma citação na cabeça que eu lutei pra conseguir achar na íntegra “tenho pensado noite e dia de quem era a culpa, e cada vez que penso vem uma culpa nova, que engole a outra; mas sempre há culpa!”
    Seu texto me fez refletir sobre uma porção de coisas, obrigado!

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  2. Lígia disse:

    Sensacional
    O amadurecimento nos ensina a assumir nossas escolhas e suas consequências e não é fácil bancá-las
    Nessas histórias de amor nem sempre existe o certo ou errado depende do ponto de vista. Pronto tá feita a bagunça rs
    Amei o texto

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