Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas?

No último post, eu dei meu pitaco não solicitado sobre a coragem necessária para amar. Fazia tempos que eu não escrevia, mas fiquei contente com a repercussão. Quem sou eu para falar como a vida é ou deixa de ser, você pode estar se perguntando. Realmente, não sou psicóloga ou uma anciã de extensa experiência de vida. Eu sou só uma mocinha que chorou muito em um dado momento, fez terapia e hoje gosta de dar pitaco para quem ela vê chorando pelo mesmo motivo. Inclusive, também recomendo a terapia.

Bem, vou recapitular o que eu havia dito, caso você não tenha lido (ultraje!). Em 2016, eu me apaixonei por um rapazinho, perdidamente. Ele disse desde o início que, apesar de gostar de mim, não queria um relacionamento. Eu relevei todas as suas atitudes que confirmavam que ele não gostava de mim como eu gostava dele; que nossas expectativas não estavam alinhadas; que quem eu era não era o que ele buscava. O que eu aprendi com essa história foi que

é preciso coragem para enxergar quando não se é amada pelo outro; é preciso coragem para aceitar e, ainda assim, amar a si próprio. É preciso ainda mais coragem para priorizar o seu amor por si mesmo, abaixar a cabeça e falar: eu me apaixonei pela pessoa errada, ninguém sabe o quanto eu estou sofrendo! É preciso coragem para abrir mão de todo o tempo e energia gastos com essa luta inglória. É preciso coragem para recomeçar do zero! É preciso coragem para assumir que a culpa não é dele ou sua, e mesmo para admitir que não existe culpa. Existe a vida, e ela é assim. Sempre foi, sempre será.

Eu não quis embananar os assuntos, por isso eu deixei para falar aqui sobre essa questão da culpa. Oras, é claro que existe culpa, mas não necessariamente nesse caso específico.  Se alguém mentiu, manipulou, agrediu física ou psicologicamente, ou qualquer coisa assim, essa pessoa tem culpa sim senhor. Caso você não consiga sair desse relacionamento, procure ajuda, não tenha vergonha.

Eu disse que, nesses casos, não existe culpa… Mas isso não é motivo de ficar com cara de seu-malaquias-cadê-minha-farofa (expressão perfeita do perfeito prefeito Odorico Paraguaçu). E eu já vou dizer porquê. Mas primeiro… Você conhece o pequeno príncipe? Meu Deus, esse personagem é muito famoso. Existe até um hospital com esse nome!! A história é classificada como infanto-juvenil, mas não concordo não. É muito triste e filosófica, coitada da criança. Cheio de frases de efeito para camisetas, sapatos, bolsas, quadros, legendas de fotos, tatuagens… Tenho um amigo que tem uma aversão visceral ao pobre do príncipe por causa disso. Convenhamos, ele é mesmo chatonildo.

Em dado momento da história, a raposa filosofa para o pequeno príncipe de que foi o tempo que ele gastou com a rosa que a fez tão importante, e que

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

Apesar de achar o eternamente um pouco excessivo, a raposa tem razão.

Aquele rapaz me cativou e viu o caminho que eu estava trilhando. Independente dos defeitos que ele pudesse ter, ele não era bobo, muito menos ingênuo. Eu acho que ele deve ter pensado: “eu avisei que não quero um relacionamento, se ela decidiu continuar, então o problema é dela. Eu fiz a minha parte.”

Ainda defendo que não haja culpa na minha história – e isso é libertador. Mas, da mesma forma que eu cometi erros, ele também. Não é por não haver culpa que eu deva eximi-lo totalmente das consequências de seus atos.

Ele estava assistindo tudo aquilo, percebendo as causas e efeitos, e não fez nada. Ou melhor dizendo, ele fez sim. Ele me deixou continuar a me ferir pelas minhas expectativas claramente desalinhadas com as dele. As consequências dos meus atos e dos seus atos eram uma só: o meu sofrimento. Por mais que isso não o afetasse diretamente, era certo? Estamos aqui com um dilema moral!

Se eu sou testemunha de um crime, e não alerto a polícia sobre sua ocorrência; se eu vejo um acidente de carro gravíssimo e não ofereço ajuda, chamo uma ambulância… Bem, eu não estou cometendo um crime, mas é um dilema moral, uma questão entre o certo e o errado.

Saber ser a causa da dor alheia, poder apaziguá-la e não o fazer, também.

A bem da verdade, não adianta querer ajudar quem não quer ser ajudado. É gastar energia à toa. Porém, é preciso ter a sutileza de perceber a diferença entre não querer ajuda ou não ter condições nem mesmo de pedir ajuda.

A paixão é um pharmakon, termo grego do qual deriva fármaco, e significa tanto remédio como veneno. Depende da dose, claro. Eu aprendi com a Agatha Christie que a digitalina é um remédio para insuficiência cardíaca… Mas, se usada de forma inapropriada, pode causar empacotamento compulsório (Ai, Odorico, como eu te amo!). A paixão mexe com os hormônios liberados pelo cérebro, todas aquelas -inas que fazem com que sintamos bem-estar e prazer. E isso vicia!

Está quimicamente explicado

Saiba mais aqui

Quando o celular apitava com mensagem dele, meu coração disparava: era uma montanha-russa de sensações. Eu estava viciada naquela paixão… ou naquela descarga de prazer? Não sei, mas dá na mesma. Eu me sentia doente, intoxicada. Tal qual um viciado em drogas, eu não conseguia dizer não, eu não conseguia evitar estar ali, eu não conseguia parar, ir embora, me afastar. Eu me alimentava de qualquer migalha de atenção que ele pudesse me dar.

São as migalhas de pão que caem da mesa do rico: este as despreza; mas o pobre as recolhe avidamente e delas se alimenta. (Les liaisons dangereuses, carta CXIII)

Ele poderia ter sido generoso, altruísta, benevolente, piedoso… e cessado o meu tormento. Ele poderia ter feito o que eu não conseguia fazer, e ter se afastado de mim. Se ele não podia dar o que eu queria, estava a seu alcance dar o que eu precisava. E isso não era me infligir mais dor, estendendo aquela situação, cujo final seria o mesmo em um mês ou um ano. Porque não, eu não iria acordar um dia falando “nossa, superei” como nos filmes. Não sem uma boa dose de esforço, distância e lágrimas. Afinal, a cura dói.

E se só tem a opção da dor, menos mal que seja a dor da cura. Do contrário, um belo dia a gente acorda e percebe que a pessoa amada ama outro alguém. E aí, a dor é muito, muito pior. Porque é quando todos aqueles argumentos que a gente usava para insistir naquela situação caem por terra. Você sabe do que eu estou falando… “Ele tem medo de se entregar, mas eu vou insistir e vencer esse medo, vou mostrar para ele que eu não vou fazer ele sofrer, vou mostrando aos pouquinhos como eu posso e faço ele feliz, e um belo dia ele vai acordar e perceber que me ama e não quer viver sem mim!”. Ledo engano… A gente não está preparado para que a vida venha e esfregue na nossa cara que o problema era mesmo a gente. Não que seja um problema… Digo, é só uma falta de sincronia entre o que a gente é e o que o outro quer, busca no seu companheiro.

E não, não adianta tentar mudar isso. Se você é assim, mas a pessoa gosta de assado, não dá para você virar assado ou convencê-la de que assim é melhor. Não é justo você mudar a si mesmo exclusivamente para satisfazer o outro, nem exigir que o outro faça o mesmo por você.

É claro que as pessoas podem mudar! Mas somente se elas quiserem. Lição número 1 da terapia: ninguém muda por ninguém, só por si mesmo. A mudança não vem de fora, mas de dentro.

Bem, eu era adulta, vacinada, dona do meu narizinho. Eu sabia o que estava fazendo? Sabia! Eu conseguia controlar o que eu estava fazendo? Claro que não! Isso é a responsabilidade afetiva da história do pequeno príncipe. É ter a compaixão de abrir mão de uma situação boa para si, confortável e prazerosa, para evitar ser o motivo de sofrimento de outra pessoa. Eu não sei você, mas eu não desejo ser a causa de sofrimento de ninguém. Isso é um dilema moral.

Com este artigo e o anterior, eu busquei mostrar os dois lados da mesma moeda: de quem cria expectativas e de quem é conivente com isso. O que fazer em ambos os casos?

Cai fora!


Mais textos sobre os assuntos do coração:

Como superar um coração partido

“Ele não te merece…”

Quando me apaixonei por um aquariano

E para descontrair: Causos (ruins) do Tinder

Publicidade

4 comentários sobre “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas?

  1. Caio Portugal disse:

    “Bem, vou recapitular o que eu havia dito, caso você não tenha lido (ultraje!). Em 2016, eu me apaixonei por um rapazinho, perdidamente. Ele disse desde o início que, apesar de gostar de mim, não queria um relacionamento. Eu relevei todas as suas atitudes que confirmavam que ele não gostava de mim como eu gostava dele; que nossas expectativas não estavam alinhadas; que quem eu era não era o que ele buscava.”
    Infelizmente o mundo é por muitas vezes cruel conosco, o sentimento da paixão nos deixa cegos, por muitas vezes na minha opinião caímos no pensamento que é possível mudar a outra pessoa mesmo que ela deixe suas intenções explicitas.

    A próposito a propoganda funcionou (if you know what I mean hahaha), parabéns pelos seus textos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s