Retrospectiva literária: 2019

Eu sei, eu deveria ter escrito esse artigo em dezembro… Não vou mentir, escrever dá muito trabalho! O que me desmotiva, na verdade, é a revisão… Sim, morro de preguiça de reler e corrigir tudo o que já escrevi num sopro de inspiração. Aliás, 2019 acabou e uma das minhas metas para 2020 era ser mais dedicada ao blog. Janeiro já está acabando e eu ainda estou andando com meus pés de 2019… O problema é que meus pés de 2019 são como os pés de Édipo: pesados, inchados, difíceis de arrastar.
O primeiro semestre de 2019 foi, para mim, um tsunami de ansiedade e estresse por conta do final do mestrado. E depois, a calmaria… Mas havia os destroços para limpar e ainda reconstruir um novo início, o novo ciclo. E no meio de tantas metáforas temporais, eu não tinha motivação, disposição, energia, vontade de nada. Passei o ano tão cansada o tempo todo que 2019 se tornou o ano em que menos li, desde que comecei a anotar minhas leituras, em 2011. Menos li em termos, porque lia o dia todo, todos os dias, mas não o tipo de leitura que eu costumo considerar. Eu só listo as leituras por prazer, por escolha própria, por lazer.
Enfim, sem mais delongas, eis a minha parca, pobre listinha de leituras de 2019. Vou tentar fazer um resuminho de cada título, mas sem estragar nenhuma surpresa!


1. Os grandes processos da história: Maria Stuart; Cinq-Mars; Foucquet; Jean Calas; Camille Desmoulins (V. I) – Henri Robert

Essa coleção de livros é uma delícia. Era do meu vovô, tem cheirinho da biblioteca de vovô, me dá uma nostalgia doída! Páginas amareladas, tradução sem google… Tem passagens que dá até para ler o original nas entrelinhas, sabe? Aquela frase que em português não faz muito sentido, mas que em francês, sim! Essa coleção faz um resuminho de casos que viraram processos judiciais, ou seja, de crimes. Gosto principalmente dos que envolvem a monarquia francesa (ou a queda dela), como em quase todo este volume – menos a parte de Maria Stuart. Especialmente, aqui vale a pena o caso Jean Calas: um burguês comum que se vê acusado do assassinato do filho, dividindo opiniões por toda a França. Aliás, um de seus defensores ferrenhos era ninguém menos que Voltaire, que escreveu o “Tratado sobre a tolerância” (1763) sobre o caso.


Em seguida, comecei a ler uma coletânea de contos de vampiro: “Herdeiros de Drácula: clássicos esquecidos de Sir Conan Doyle, M. R. James, Algernon Blackwood e outros” organizada por Richard Dalby. Como se trata de uma coletânea, prefiro listar os contos separadamente (mesmo porque eu sou arruaceira e não terminei de ler!). Apesar do título, a coletânea propõe também contos anteriores a Drácula, que inclusive parecem ter influenciado Bram Stocker. Antes de cada conto, há uma pequena, mas interessante, contextualização do autor e sua obra. Como se trata de contos de terror e/ou fantásticos, a maior parte é narrada em primeira pessoa. Se você gosta destes gêneros, corre pro abraço! A curadoria é realmente algo, todos os contos que li foram muito bons. Inclusive, preciso retomá-los urgentemente.

2. O ladrão de cadáveres – Stevenson Eu já havia lido esse conto, mas acabei relendo. Apesar de Stevenson ser muito mais conhecido por sua Ilha do Tesouro, ele é um principezinho do terror/fantástico. Aqui, um homem relata um acontecimento inexplicável durante seus anos de estudante de medicina – e estagiário do necrotério estudantil.

3. Os últimos senhores de Gardonal – William Gilbert
Um barão cruel cisma com uma jovem da aldeia, que o recusa. Após ameaçar toda a aldeia, os habitantes buscam a proteção de um sábio feiticeiro. Gostei bastante deste conto.

4. O destino de madame Cabanel – Eliza Lynn Linton
Um solteirão volta de uma viagem com uma bela esposa, mas sua fiel governanta desconfia que ela possa estar ligada a estranhos acontecimentos…

5. A árvore assassina – Phil Robinson
Esse conto curto é sobre… uma árvore assassina! Não tenho como falar mais do que isso.

6. O vampiro – Vasile Alecsandri
Bem curto, trata-se, na verdade, de uma poesia vampiresca.

que coisa fofa!

7. O mistério de Campagna – Anne Crawford
Um dos contos que mais gostei! Um pintor acompanha seu amigo, que lhe apresenta seu novo lar. Com a estranha falta de notícias deste, ele volta à afastada casa para descobrir o que está acontecendo.

8. O mistério de Ken – Julian Hawthorne
Um homem faz uma visita a seu amigo, que está muito estranho desde que voltou do exterior. Esse acaba revelando o que aconteceu em sua viagem. Este conto vale muito a pena, eu adorei.

9. Solto – Mary Cholmondeley
Um companheiro de viagem do nosso narrador nunca, nunquinha, mostra o pescoço: sempre anda com colarinho alto, mesmo no mais absoluto calor. Ao ser confrontado, ele revela o motivo. Dado o tema da coletânea, parece bem óbvio o motivo, não? Não!

Apesar dos contos começarem com eventos estranhos, que o tema da coletânea deixa bem óbvio o motivo, eles são muito bem escritos, e não caminham, em absoluto, pela obviedade. As histórias são tão envolventes que somente quando o tema central aparece, o leitor lembra do que ele tem em mãos.

10. A parasita – Arthur Conan Doyle
Sim! O criador do famigerado Sherlock Holmes também se aventurou em outras águas além do policial, para ao bem de todos e felicidade geral da nação! E sabia que ele foi amigo de Bram Stocker? Que pessoa mais abençoada! Neste conto, o professor Gilroy é um cientista extremamente cético, que aceita participar de uma pesquisa de seu colega sobre hipnose. Para provar a charlatanice da experiência, ele relata tudo em seu diário.

11. A boa Lady Ducayne – Mary E. Braddon
Uma jovem de 18 anos precisa muito conseguir um emprego para ajudar a mãe. Apesar de não ter nenhuma experiência ou talento, ela consegue um incrível trabalho de dama de companhia. Além de viajar em alto luxo, iria ganhar muito dinheiro para praticamente não fazer nada. Mas o tempo vai passando e ela se sente cada vez mais infeliz, e sua saúde se deteriora.

12. Um dedo morto – Sabine Baring-Gould
Um homem comum está na National Gallery admirando as obras, quando percebe que uma mulher está olhando fixamente para seu joelho, expressando verdadeiro horror. A princípio, ele não entende o motivo da mulher gritar e sair correndo para longe, mas logo descobrirá.

13. Vontade – Vincent O’Sullivan
Conto curto sobre o poder da força de vontade: um homem odeia tanto sua esposa que acredita poder matá-la só com a força do ódio.

14. O quarto de pedra – H. B. Marriott Watson
Um jovem se hospeda na nova casa de seu amigo, que começa a ter atitudes cada vez mais estranhas após mudar para o infame quarto de pedra…

15. A donzela vampira – Hume Nisbet
Conto curto sobre um jovem viajante que se hospeda no chalé de uma mulher e, ao conhecer sua filha, ele se apaixona.

16. O velho retrato Hume Nisbet
Um pintor compra um quadro feio, em péssimo estado, mas cuja moldura muito lhe interessava. Ao examinar a imagem, decide limpá-la para ver se há algo embaixo da pintura feiosa de um coletor de impostos. Ele logo iria descobrir o motivo de terem escondido a verdadeira imagem.


Ainda faltam onze contos para finalizar a coletânea, e espero dar notícias em breve! Acabei tendo a sequência de contos vampirescos suspensa, num belo dia em que estava esperando minha mãe na cabeleireira… Comecei a fuçar uns livros que estavam à venda por lá, e acabei sendo fisgada por…

17. O colecionador de ossos – Jeffery Deaver
Não recomendo. Precisava falar isso o quanto antes. Que ódio! O livro tem um início de tirar o fôlego. Aliás, é o típico livro policial, onde um serial killer deixa pistas para a polícia sobre o próximo crime. Claro que é aquele corre-corre para evitar o crime. E, para minha indignação, ela consegue o tempo todo! Que raio de livro de assassino em série é esse?? Faltou, sim, sangue. Enfim, além do final ser decepcionante, temos aqui uma mocinha igualzinha a Clarice Sterling de O silêncio dos inocentes (e continuação). Reclamei dela na retrospectiva anterior. Não sei qual o conceito de “mocinhas fortes” para esses escritores americanos, mas claramente existe um consenso quanto à policial lindíssima, de uma teimosia que faz dela mais uma pessoa voluntariosa e mimada do que alguém de personalidade forte. Além da estratégia de disfarçar um desenvolvimento psicológico absolutamente raso com pensamentos contrariados: “não quero fazer isso, mas meu chefe mandou, por isso não vou fazer, vou mostrar que sou decidida”. Amada, você não tem personalidade forte, você é uma mala sem alça (e que deveria estar desempregada).

Foi aí que eu comecei a assistir à segunda temporada de Mindhunter na Netflix, e fiquei absolutamente interessada no tema assassinos em série apenas de locais e épocas bem longe da minha, porque tenho medo. Ainda bem que minha cachorrinha de 4,5kg dormia comigo para me proteger!

18. Mindhunter – John Douglas, Mark Olshaker
Origem da série, trata-se de um livro-memória do trabalho de John Douglas como perfilador do FBI. A leitura é muito interessante e ágil, cada capítulo aborda crimes em que ele e ou sua equipe teria ajudado a resolver: como o FBI entrou no caso, que fatos foram-lhes apresentado, qual foi seu diagnóstico de assassino e o desfecho final. Com esse livro dá para saber um pouco sobre vários e vários crimes. Algumas descrições podem ser um pouco fortes. Aconselho a relevar o ego do autor: ele teve uma carreira importante e faz questão de contar!

19. De frente com o serial killer – John Douglas, Mark Olshaker

Com o sucesso da série, John Douglas foi bem esperto e lançou logo um segundo livro, que enfocaria mais na parte das entrevistas com os assassinos. Enquanto Mindhunter exploraria mais a prática da psicologia forense, De frente com o serial killer proporia o estudo anterior, como visto na série da Netflix. Na realidade, trata-se de mais do mesmo. Muitos dos casos narrados são repetidos, mas narrados de outra forma, focando no porquê ele chegou a determinada conclusão sobre os assassinos, com base nas cenas de crime. Se você está obcecado pelo assunto como eu estava, você vai gostar. Se você estiver ponderando entre comprar o livro ou um pãozinho doce, vá no pãozinho (estou morrendo de fome enquanto escrevo isso… E quem não adora pãozinho doce?).

20. BTK: Máscara da maldade – Roy Wenzl, Tim Potter, Hurst Laviana, L. Kelly

Livro-reportagem sobre Dennys Rader, o BTK, assassino que aterrorizou a região de Wichita (Kansas), durante 30 anos. Muito bem escrito e detalhado, mas com pouquíssimas imagens. Dependendo do seu nível de interesse, pode ser detalhado demais. Ou seja, se você quiser saber mais sobre os crimes, talvez a leitura se mostre um tanto enfadonha.


Depois deste intensivo de crimes, que inclui livros que eu ainda não acabei e por isso não estão aqui, optei por voltar para a coletânea de peças do Nelson Rodrigues. Algo que seria mais tranquilo de ler (isso sem considerar os incestos, infanticídio, cafetinagem de filhas e derivados).

21. Dorotéia
Uma mulher bonita volta para a casa das irmãs feias, que exigem que ela se torne feia também. Essa é a melhor descrição que posso dar dessa peça, porque ela não é muito realista ou literal, digamos assim.

22. Senhora dona dos afogados
O dia do afogamento de uma jovem coincide com o dia em que uma prostituta foi assassinada anos atrás.

23. A falecida
Uma mulher, que morre de inveja de sua vizinha, encomenda o velório mais luxuoso que a cidade já viu.

24. Perdoa-me por me traíres
Uma colegial leva sua amiga para ganhar dinheiro fácil pela primeira vez.

25. Os sete gatinhos
Odiei o fato de terem gatinhos mortos. Poxa, Nelsinho, enche essa birosca de incesto & cia., mas deixa os gatinhos fora disso! Uma família tem altas expectativas para a filha mais nova: a única que poderia conseguir um bom casamento, por ainda ser virgem.


Para finalizar o ano e o post, posso dizer, com muito pesar, que o ano de 2019 não teve nenhum livro que tenha sido um divisor de águas para mim. Por mais que tenha gostado de (quase) tudo o que li, nenhum desses títulos me marcou de verdade. Espero que 2020 seja diferente! Inclusive, esse ano pretendo fazer resenhas assim que terminar os livros, com certeza vai ser menos trabalhoso do que escrever tudo de uma vez só!
Aliás, gostaria de pedir perdão aos leitores deste post, porque não consegui justificar o texto. Para quem escreveu uma dissertação no padrão ABNT, estou no mínimo horrorizada.

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