Columbine: um atentado, dois livros (resenha)

Uma vez eu li uma reportagem que explicava o interesse humano em coisas mórbidas. Os horrores perpetrados pelos nazistas (não somente) nos campos de concentração, assassinatos brutais, em massa, torturas. Como pôde? Como um ser humano pode infligir tanta dor a um outro ser humano? É basicamente daí que surge nossa fixação pelo tema: o incompreensível gera curiosidade. É quase como se, ao consumir essas informações, o cérebro tentasse entender o porquê. Mas é impossível (para alguém minimamente empático), e continuamos a procurar mais e mais informações.

Caí nesse golpe do cérebro e, desde o ano passado, por conta da série Mindhunter, minhas leituras estão flutuando bastante ao redor desse tema. Um documentário aqui, um podcast ali, e muitas páginas lidas. Enfim, depois de transitar principalmente entre seriais killers (veja aqui minhas leituras), fiquei meio assombrada cansada do tópico. Acontece que um livro me chamou a atenção: O acerto de contas de uma mãe, por Sue Klebold.

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Como não se interessar por essa descrição? Atentados sempre chocam. E a gente (pelo menos eu) nunca pensa sobre a família dos atiradores, sobre as pessoas que conviveram com eles, que os viam como normais. Todo mundo conhece(u) uma pessoa meio estranhinha. Imagine acordar com a notícia de que essa pessoa cometeu um atentado, que horror. Não pensem que estou desmerecendo as vítimas e suas famílias, longe disso, mas esse livro me instigou por oferecer uma visão dificilmente acessada nesses casos.

Antes de dar meu pitaco absolutamente não solicitado sobre este livro, preciso fazer um resuminho sobre o que foi o massacre de Columbine. As informações são facilmente encontradas na Internet, mas eu sou autônoma e vou fazer de cabeça com o que eu acho importante, após ler o livro de Sue Klebold e o livro-reportagem Columbine, de Dave Cullen, o qual também resenho ainda neste post.

O massacre de Columbine

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Columbine High School

Na terça-feira 20 de abril de 1999, Eric Harris (recém-completos 18 anos) e Dylan Klebold (17 anos) entraram no colégio Columbine, onde se formavam naquele semestre, matando 13 pessoas e se suicidando em seguida. Vamos aos fatos: quê?

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Eric Harris  à esquerda e Dylan Klebold à direita

Ao que tudo indica, Eric Harris tinha algum grau de sociopatia ou psicopatia(*), enquanto Dylan Klebold era extremamente depressivo. Porém, ambos levavam uma vida normal. Iam ao colégio, tinham um grupo de amigos, trabalhavam numa pizzaria para tirar uma graninha, gostavam da surfar na Internet. Ai, os anos 90! Eric era extrovertido e sociável, enquanto Dylan era bastante tímido e introvertido. Eles eram populares? Não eram não, longe disso. Sofriam bullying? Essa é uma pergunta controversa, há os que digam que sim, e muito, há os que digam que mais ou menos. Bem, eles não estavam no topo da pirâmide hierárquica do colégio, mas parece que também não estavam na base. Eles eram frequentemente provocados aleatoriamente, levando encontrões dos atletas nos corredores, sendo chamados de bichas (fags), e teve um incidente com catchup mal esclarecido. Mas eles também faziam outros alunos suas vítimas de provocações. Dylan escreveu em seu diário se sentir mal por praticar bullying, mas também declarou para sua mãe ter vivido o pior dia de sua vida (apesar de não ter dado o motivo, parece ter sido relacionado a ser chamado de bicha).

Mas eles não eram santos que do nada resolveram fazer uma loucura. Cerca de dois anos antes do atentado, Eric, Dylan e um outro amigo partiam para “missões” noturnas, onde faziam traquinagens do tipo jogar papel no quintal de alguém do colégio, tudo regado a muita bebida alcóolica. Houve também um caso de furto, onde Dylan e Eric arrombaram uma van e levaram equipamentos de som, sendo pegos logo em seguida. Detidos, foram encaminhados para um programa de punição alternativa chamado Diversion, onde deveriam frequentar sessões semanais com um coordenador e fazer trabalhos sociais. Eric se saiu especialmente bem, segundo os relatórios dos coordenadores, que eram só elogios sobre sua mudança positiva e comprometimento. Entretanto, em paralelo, o plano do ataque ao colégio já estava sendo traçado.

A questão mais latente, claro: por quê? Eric odiava o mundo, literalmente. Ele odiava a raça humana e queria que todos morressem, mesmo que isso incluísse ele próprio ou amigos. Pelo menos ele não foi incoerente em suas convicções. Já Dylan queria morrer. Ele falava muito sobre suicídio em seu diário, dizia estar frustrado por ainda estar vivo, mas nunca chegou a tentar o ato em si. Enfim, juntaram a fome com a vontade de comer.

Apesar de treze pessoas inocentes terem morrido na tragédia e muitas outras terem ficado feridas, o ataque foi um fracasso, se considerado o plano original. Eles planejavam matar centenas de pessoas. Para se ter uma noção, o colégio acolhia cerca de 2000 pessoas diariamente. Eric preparara bombas caseiras, que foram plantadas no refeitório e programadas para explodir às 11:17 da manhã, horário de maior movimento. Eles esperariam a explosão cada qual em seu carro, estacionados em locais opostos do estacionamento. Assim, os que sobrevivessem à bomba e à parede de fogo que deveria se formar, iriam correr para a saída do prédio, e eles os alvejariam enquanto caminhassem para dentro.

Aparentemente, é preciso habilidade para criar uma bomba efetiva, e elas não detonaram. Eles decidiram continuar o plano, entrando e atirando em quem aparecesse, aleatoriamente. E assim o fizeram. Não, eles não atiraram em todo mundo que cruzou com eles. Era meio que uma coisa gato e rato, o prazer de brincar com a vítima, de aterrorizá-la. O maior número de vítimas foi feito na biblioteca, onde estudantes aproveitavam o horário de almoço para fazer algum dever ou estudar para provas. Amontoados embaixo de mesas abertas, os atiradores não tiveram dificuldades de encontrá-los, e atiravam aqui e ali, faziam umas piadas, interagiam com as vítimas: Eric fez uma garota implorar por sua vida por cerca de dez minutos até deixá-la sair. Quando um garoto que havia estudado na mesma turma que Dylan perguntou o que ele estava fazendo, ele respondeu com desdém “matando pessoas”. O garoto replicou “você vai me matar também?”, e Dylan deixou que ele fosse embora. Vou resumir que eles ainda saíram da biblioteca, deram umas voltas, atiraram contra a polícia do lado de fora por uma janela (sem atingir ninguém) e depois voltaram para a biblioteca, onde se suicidaram.

Na mesma manhã, antes do ataque, Dylan e Eric gravaram cerca de quatro horas de vídeos relatando seus motivos, intenções, preparação do ataque. Chamadas de basement tapes (vídeos do porão – gravados no quarto de Eric, no porão da casa dos pais), essa gravação ficou trancafiada a sete chaves e nunca foi divulgada ao público. Quem pôde vê-las foram familiares dos assassinos, das vítimas e dois ou três jornalistas selecionados a dedo. A polícia se preocupa, não sem razão, que essas gravações se tornem referência  e impulsionem o acontecimento de outros ataques. E, a bem da verdade, em diversos ataques do gênero, material sobre e referências a Columbine figuravam entre os pertences dos atiradores, como no caso de Virginia Tech, em 2007 (33 mortos), e até mesmo em Suzano (SP), aqui mesmo no Brasil (2019, 10 mortos). Você pode ler uma transcrição dos vídeos, em inglês, aqui. Em 2015, a polícia declarou ter destruído todas as versões existentes destas gravações, uma vez que estavam sendo pressionados a liberá-las ao público. Será verdade? Eu acho que não, e uma hora isso vai vazar, se é que já não esteja disponível na dark web.

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Recorte de uma foto da classe que se graduaria em junho, estudantes fazendo “arminha”com a mão: exaltação da violência. Eric de boné preto, à sua direita, Dylan de óculos escuros.

É preciso, antes de finalizar esse resumo, relatar o paupérrimo desempenho da polícia antes, durante e depois dos ataques.

Antes: Eric tinha um blog onde escrevia todas as intenções dele: sim, ele literalmente falava que iria matar todo mundo, que estava produzindo bombas, enfim, a discrição em pessoa. Um garoto, ameaçado no blog e, reviravolta, alertado por ninguém menos que Dylan, denunciou à polícia, que averiguou o site, fez um relatório recomendando uma investigação e simplesmente guardou-o na gaveta. Quando isso veio à tona, o que a policia fez? Sumiu com todo e qualquer arquivo referente a este episódio e se fez de desentendida. Pois é, a ineficiência do departamento de polícia permitiu que quinze mortes acontecessem.

Durante: assim que o tiroteio começou, a polícia foi alertada e em menos de cinco minutos estava à porta do colégio Columbine. E foi só isso mesmo. Muitos policiais se deslocaram até lá, fazendo tão somente “assegurar o perímetro”. Em 1999, eles não tinham noção de como lidar com esses casos. O receio era de entrar no prédio e, pressupondo que os atiradores estavam fazendo reféns e que o ato era motivado por alguma reivindicação, a aproximação policial poderia assustá-los, gerando o assassinato dos reféns. Porque, em geral, era assim que acontecia. As pessoas invadiam um local, faziam reféns, pediam coisas, iam presas. O objetivo não era, na cabeça deles, o do assassinato em si. O problema é que isso deixou o caminho livre para os atiradores. Depois desse caso, obviamente, a polícia reformulou o planejamento de intervenção, que passou a ser liquidar com a ameaça o mais rápido possível. O resultado foi que a polícia, especificamente a SWAT, entrou no prédio três horas após os assassinos já estarem mortos. E nessas três horas um professor sangrou até morrer em uma sala, apesar dos alunos com ele terem colocado uma placa na janela onde se lia “1 bleeding to death” (1 sangrando até morrer). Tudo nesse episódio é trágico, mas é a história desse professor, Dave Sanders, que mais me parte o coração. Faço questão de destacar que ele ajudou muitos alunos a fugir, salvando vidas em detrimento de sua própria.

Depois: a polícia ficou que nem barata tonta durante a investigação, sempre adiando o prazo para liberar relatórios, foi a maior bagunça. Os relatórios sobre a investigação só foram divulgados porque os pais das vítimas entraram na justiça pedindo explicações, tendo ganho de causa. Nesse primeiro ano, foi a festa da mídia, todo tipo de história surgiu e ganhou força, o que faz com que, até hoje, muitas informações sobre Columbine tenham se solidificado erroneamente, como o fato de Dylan e Eric fazerem parte de uma “máfia do sobretudo”. Quem em sã consciência pode realmente acreditar que jovens de 17 anos façam parte de uma máfia no colégio? E detalhe, uma máfia discretíssima, cujos integrantes nunca vão ser percebidos usando um sobretudo longo de couro. Panelinha vá lá, mas máfia? Sinceramente! Mas também, a necessidade de entender era desesperadora, qualquer hipótese que fizesse o mínimo de sentido era acolhida avidamente.

Depois da divulgação de praticamente todos os arquivos do caso, a única novidade que teremos será em 2027, quando serão liberados os depoimentos dados pelos pais dos dois atiradores.

O acerto de contas de uma mãe – Sue Klebold

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Agora que você já sabe quem é Dylan Klebold, pode imaginar quão peculiar é o relato neste livro. Isso porque sobreviventes e familiares de vítimas sempre falam, é mesmo uma forma ou tentativa de cura. Em geral, a família dos assassinos preferem ser invisíveis, principalmente por serem, eles próprios, atacados e vistos como cúmplices ou coniventes: somente péssimos pais não saberiam o que os filhos estariam tramando.

Sue Klebold transita em seu livro por três grandes eixos: sua vida a partir do ataque; o passado de Dylan, e uma análise mais psicológica do caso. Estes eixos se alternam, o que faz com que o livro não fique, de forma alguma, monótono.

A parte mais interessante é, claro, o relato dos fatos pós-ataque. A polícia revirando a casa, a confirmação de que era mesmo seu filho, a consulta com o advogado. Apesar de eu me solidarizar imensamente com as vítimas e seus familiares, não tem como não pensar, lendo um livro tão pessoal, de que ela foi a pessoa que mais sofreu com isso tudo. Além da dor lacerante de uma mãe que perde seu filho, ainda mais de um modo tão não-natural, havia anda a dor pelas atitudes horríveis do filho. Duas dores que, opostas, geravam culpa. Como aceitar que isso tenha acontecido? Como superar? Bem, insuperável. Existem dores que parecem que o tempo não curam. Quando Sue conseguiu retomar a sua vida, passou a militar pela causa de prevenção ao suicídio. Ela expõe como a questão é tão urgente e silenciosa e que, se tivesse sido percebida a tempo, muitas vidas teriam sido poupadas, e não somente a de Dylan. Esse é o gatilho que a faz contar casos do passado de seu filho, sua infância, sua rotina absolutamente comum em família, e que a faz alertar para o perigo: não, nem sempre os pais têm como saber o que os filhos estão fazendo na internet, trancados no quarto. Talvez esses relatos busquem, de certa forma, compreender como o filho querido pôde ter se transformado num assassino. Ou, por outro lado, busquem isentar os Klebold de serem coniventes. Eles realmente não faziam ideia de quem era o filho.

O grande trunfo deste livro é mergulhar na alma de uma mãe e descobrir como são os escombros após uma guerra. Por isso, se você busca um relato imparcial e objetivo dos fatos, esse não é o seu livro. Ela, claramente, optou por não se aprofundar nas vítimas ou em Eric: o livro é sobre Dylan, exclusivamente. Ela diz que não deseja justificar as atitudes do filho ou buscar redimi-lo, e realmente não o faz, mas, ao destrinchar a sua visão sobre Dylan, não tem como não se sentir próximo a ele, quase como um amigo. Não posso culpar uma mãe por seu amor incondicional a seu filho. Ou seja, esse livro é realmente o que ele se propõe: a visão de uma mãe amorosa sobre seu filho monstruoso. A parte final do livro se dedica principalmente a alertar sobre a importância de perceber os sinais invisíveis de quando alguém não está bem. Ela encontrou, na sua tragédia pessoal, a sua nova razão de viver. No fim, o livro serve de grande alerta.

Eu achei esse livro extremamente interessante. Contudo fiquei com algumas dúvidas sobre, por exemplo, a extensão da (aparente) nefasta influência de Eric sobre Dylan, como os ataques foram planejados e executados, quem eram as vítimas… Da forma que Sue coloca, parece que Dylan foi um joguete nas mãos de Eric. Será? Por isso, fui atrás do célebre Columbine, livro-reportagem de Dave Cullen, lançado no último outubro pela editora Darkside.

Columbine – Dave Cullen

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O livro da editora Darkside tem como base a edição original de 2016. Entretanto, a mais nova edição é de 2019. Isso, aliado à excessivas reclamações de leitores acerca de erros tipográficos da versão em português, me fez recorrer à versão eletrônica original. Mas acho que os leitores da edição Darkside não vão perder muita coisa, não. Ao contrário…

A primeira coisa que preciso dizer sobre esse livro é: ele é grande. Não, não (só) o número de páginas (480!). Ele é enorme… Quero dizer, ele enche linguiça adoidado. A verdade é que o livro poderia ser, perfeitamente, a metade do que é. Seria coeso, objetivo e plenamente satisfatório.

Enfim, nesse livro você vai encontrar todos os detalhes sobre o crime. Aliás, todos e mais um pouco. Vejamos, o livro aborda o passado de Dylan e Eric, o que fizeram dias antes do atentado, como o plano foi arquitetado, detalhes sobre as “missões” noturnas, sobre o furto e prisão, suas amizades, seu trajeto de ataque. Dedica capítulos inteiros para homenagear as vítimas, narrando quem foram, entrevistando familiares. É de cortar o coração, mas até certo momento. Chega uma hora que é tanto “mais do mesmo” que se torna banal. Ou seja, o objetivo de dar voz às vítimas acaba generalizando-as pelos excessivos detalhes. Alguém foi escoteiro, alguém ia na igreja… Não estou dizendo que as vítimas são desinteressantes, essa não é a questão. Digo que a forma de escrita acaba se arrastando tanto que tem que ter muita garra para se manter entretido pela leitura.

Enfim, se você tem interesse em ler sobre o massacre de Columbine, eu não necessariamente recomendo esse livro. Na verdade, todas as informações principais podem ser encontradas facilmente na internet (falo mais sobre isso ao final do post).

Um fato curioso é que, fazendo pesquisas sobre o assunto para escrever este artigo, eu encontrei uma página sobre Columbine no Reddit. Se você não sabe o que é Reddit, interprete como uma comunidade no Orkut. Se você não sabe o que é Orkut, você está no limbo entre gerações e sugiro escolher um lado.

Enfim, essa comunidade (página? grupo? não sei) é dedicada a criar um “diálogo construtivo” sobre o atentado de Columbine para “compreender melhor” os fatos e de forma alguma enaltecer ou exaltar as atitudes ali cometidas. Não é bem isso o que acontece. Diversos comentários são “muito coniventes” com Dylan e Eric, alguns são perturbadores até: “se eles tivessem usado armas automáticas o estrago seria maior?”. Percebe-se que se trata, de alguma forma, de “fãs”, ainda mais porque odeiam Dave Cullen. Acham seu livro um desserviço, cheio de informações erradas. Não. As informações são as mesmas, eu chequei os pontos apontados. A diferença é a forma com que são apresentadas.

Quando citei que Eric Harris teria sido considerado psicopata pelo FBI, teoria amplamente divulgada e aceita pela mídia e, inclusive, pelos próprios pais de Eric, utilizei o asterisco(*) somente pelo fato de que, dentro dessa comunidade do Reddit, há fãs pessoas que discordam. Sim, pessoas como eu e você, que leram sobre o assunto ou os relatórios da polícia, discordam de profissionais altamente capacitados e especializados em psicopatia, crimes em massa, psicologia forense, psiquiatria. A credibilidade é algo absolutamente fascinante nos dias de hoje.

Fato curiosíssimo, há um integrante que diz ser autista e sofrer de transtorno de estresse pós-traumático complexo (TEPT-C), e que afirma estar escrevendo um livro sobre Eric Harris, destrinchando seu psicológico. Ele propõe a teoria de que Eric não seria psicopata, mas sofreria de TEPT-C, o que teria desencadeado seu comportamento violento. Eu não sou neurocientista, psiquiatra nem nada perto disso, mas me parece coisa de fã querendo justificar os erros do ídolo, ou algo que o valha. A minha opinião pessoal de leitora amadora sobre psicopatia é que sim, Eric deveria ter algum grau de psicopatia/sociopatia, sim. Além das dissimulações e mentiras comprovadas por Dave Cullen, ele escreveu em seu diário seu desejo de pegar algum calouro, esmagar sua cabeça, ouvir o “adorável som” de seus ossos sendo quebrados, esfaqueá-lo no intestino, rasgando-o até o coração, etc. (a transcrição em inglês do diário de Eric está aqui, o trecho citado está marcado como “p.26, 016”). Me parece, sim, um pouquinho psicopata. Enfim, o rapaz do Reddit não conseguiu ou não quis passar por uma editora, e vai publicar o livro gratuitamente na internet. Ah, um detalhe, ele também não é nem da área da saúde, nem da policial.


Vamos ao resumo desse artigo longuíssimo:

A tragédia ocorrida em Columbine há 20, quase 21 anos atrás marcou profundamente o final dos anos 90, dando início à década dos tiroteios em massa. Seus perpetradores, Eric Harris e Dylan Klebold, fizeram 13 vítimas fatais antes de tirarem a própria vida e, querendo ou não, se tornaram um símbolo para muitos outros jovens que se identificavam com eles, infelizmente.

Para saber mais sobre o caso, eu recomendo a leitura de O acerto de contas de uma mãe, escrito pela mãe de Dylan, Sue Klebold. O livro é denso, com a revelação de uma realidade que nós, felizmente mais distantes dessa realidade (e que assim o continue), somente podemos imaginar: o impacto na vida de uma vítima nunca validada como vítima (mas como culpada), a dos pais dos assassinos.

O acerto de contas de uma mãe: a vida após a tragédia de Columbine. Autor: Sue Klebold. Tradutor: Ana Paula Doherty. Editora Verus, 2016, 304 págs. Em torno de R$35,00.

Se, contudo, a perspectiva de uma mãe amorosa for parcial demais para o seu interesse, que busca um panorama completo do caso, recomendo com cautela o livro de Dave Cullen, Columbine. A cautela é devido ao livro ser maçante, principalmente por se propor a dar todos os detalhes do antes, durante e depois massacre. Fato é que Cullen tem uma escrita arrastada, contando e recontando as experiências dos sobreviventes e vítimas que, claro, se coincidem, afinal viveram o mesmo infeliz evento. Se você for um leitor desapegado – ai, anárquico! -, valerá a pena pular uma página aqui, outra ali. Eu não tenho coragem!

Columbine. Autor: Dave Cullen. Tradutor: Eduardo Alves. Editora Darkside, 2019, 480 págs. Em torno de R$50,00.


Ficou interessado no assunto, entende bem inglês e não quer gastar dinheiro? Uma lista que vai te dar todos os detalhes:

Neste site, criado por Dave Cullen, você encontra resposta para diversos pontos da tragédia. Ao contrário do livro, aqui há diversas imagens relativas ao caso.

Este site, criado pelo psicólogo Peter Langman, é dedicado a divulgar informações sobre atentados em escolas. No que toca Columbine, há documentos de todo tipo: a transcrição dos diários de Eric e Dylan (no site anterior, há a fac-símile, impossível de decodificar), dos vídeos do porão, das autópsias, documentos do FBI… Muito completo mesmo, mas tem que ter paciência para filtrar todas as informações. (Peter Langman é autor dos livros, sem edição brasileira, School ShootersWhy kids kill, sobre o tema.)

Neste painel do TED Talks, Sue Klebold conta sobre seu filho e destaca a importância da prevenção ao suicídio. Pode ser considerado um “resumo” do livro, digamos.

O melhor documentário que encontrei chama-se The Columbine Killers, em cerca de 45 minutos você tem um resumo completo do caso. Dividido em cinco partes, em parênteses o tópico principal abordado: parte 1 (a infância de Eric e Dylan), parte 2 (adolescência: a vida no colégio Columbine), parte 3 (perfil psicológico), parte 4 (o ataque – atenção: algumas imagens podem ser impactantes), parte 5 (repercussão: divulgação das informações). Durante todo o documentário há entrevistas com sobreviventes e pessoas próximas a Dylan e Eric, mas não com os pais.

Na comunidade do Reddit que citei, encontrei esta pasta de arquivos com filmes e documentários, dentre eles

  • O documentário “Tiros em Columbine” (Bowling for Columbine): não é necessariamente sobre o massacre, apesar do título e de haver entrevistas com sobreviventes. É um documentário sobre a absurda cultura armamentista americana, o que gera eventos como o deColumbine. Juro, o cara abriu uma conta no banco e ganhou de presente um rifle! (aqui a versão dublada)
  • O filme Hora Zero: se define como uma ficção inspirada em Columbine, mas é praticamente a dramatização do caso.

Alguns esclarecimentos, caso você busque mais informações sobre o acontecido:

Sobre os vídeos do porão: nenhum trecho foi divulgado ao público. Caso você encontre algum vídeo ou site alegando que sim, provavelmente irá se tratar de vídeos feitos por Eric e Dylan para a aula de produção de vídeo. Neles, eles dramatizam dois estudantes vingando alunos vítimas de bullying, matando seus agressores. As imagens abaixo são provenientes desses vídeos:

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Dylan falando agressivamente para a câmera

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Eric apontando uma arma falsa para a câmera

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Eric, de boné, e Dylan, de camiseta preta, com armas falsas

A polícia também não divulgou os vídeos gravados pelo circuito de câmeras interno do refeitório do colégio, apenas algumas fotos retiradas deles, como o exemplo abaixo. Não vá clicar em nenhum link que diz o contrário, não me responsabilizo por nenhum vírus.

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Eric, de camiseta branca à esquerda, e Dylan, de boné e camisetas pretos, no refeitório de Columbine, durante ataque

Os pais tanto de Dylan quanto de Eric afirmaram peremptoriamente não saberem de absolutamente nada dos planos dos filhos. Sue foi a única a realmente falar abertamente sobre o caso. O pai de Dylan se mantém mais discreto, mas concedeu uma ou outra entrevista. Os pais de Eric, além de uma nota divulgada à imprensa na época do atentado, se solidarizando com as vítimas e suas famílias, nunca vieram à público. Somente saberemos mais sobre a percepção deles sobre Eric em 2027 quando, como disse anteriormente, os depoimentos dos (quatro) pais forem divulgados.


Apesar de ter lido e pesquisado muito sobre o caso, continuo sem entender como foi possível que tudo isso tenha, de fato, acontecido. Mas vou dar por encerrado o assunto mesmo assim!

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