Confissão de uma filha do século 21

Ou sobre o abismo de apatia em que a pandemia me jogou.

Eu queria ter a filosofia da Gabriela, de Jorge Amado: “A vida era boa, bastava viver”. Uma pena, mas a vida não basta ser vivida. Por quê? Não sei, mas existe um vazio. Eu preciso de uma explicação, um motivo.

Musset, em 1836, escreveu sobre o mal do seu século: o mal de uma juventude que, filha do império napoleônico e neta da revolução francesa, cresceu ouvindo as lutas e glórias de seus ancestrais. Preparou-se para a luta, mas já não tinha mais um ideal pelo qual lutar. Uma juventude que, ao herdar uma época de paz, encontrou a ociosidade e o tédio, e perdeu-se num vazio existencial.

“O século presente, em uma palavra, que separa o passado do futuro, que não é nem um nem outro e que parece com os dois ao mesmo tempo, e onde não sabemos, a cada passo feito, se caminhamos sobre uma semente ou sobre um escombro.” (Musset – Confession d’un enfant du siècle)

E eu me sinto assim. Será que eu faço parte do século 19?

Porque a minha geração que não precisou racionar açúcar por causa da guerra, como minha avó me conta. Nem que viu a casa ser invadida por militares e o pai levado a prestar esclarecimentos no quartel, como viu meu avô. Minha geração não lembra do caos inflacionário pré-plano real, nem do desespero de quem perdeu tudo com o sequestro da poupança.

A minha geração cresceu ouvindo que o futuro seria ensolarado, porque a economia vivia uma linda primavera e o dólar valia 1,50. Até que um dia uma nuvem apareceu, e depois outra e mais outra. E hoje o céu é nublado, e a vida, completamente cinza.

Entre os extremos de pais ausente e superprotetores, viramos adultos perdidos. Moldamo-nos dentro de uma sociedade que foi dita ser “de espetáculo” e “líquida”, com uma ambição infindável: sempre mais, sempre melhor. Uma busca cíclica a um trabalho que me satisfaça mais, ao parceiro que me satisfaça melhor, ao amigo, hobby, casa que mais mais e melhor. E sempre tem alguém à frente. Se ele conseguiu, por que não eu? Afinal, quem procura, acha! E a busca recomeça.

E agora? É tão cansativo correr atrás do pote de ouro no final do arco-íris! E perceber isso é aceitar a mediocridade da vida. É sentir o mito de Sísifo, de Camus. Qual o sentido de tudo isso? Não existe. E essa constatação nos lança, me lançou num abismo de apatia. A mais absoluta apatia.

Acho que a vida sempre foi banal, mas a nossa rotina eficazmente preenchida com acordar-trabalhar-sair-gozar-dormir camuflava isso. Só que acabou escancarada, nua aos olhos de todos, com a pandemia. É por isso que tanta gente está ignorando o dever de restrição e continua vivendo normalmente. Encarar a banalidade, a chatice da vida é questionar as razões de viver. Mas não existe motivo algum. Musset e Camus buscaram uma resposta, um motivo, e eu também. Foi Gabriela quem estava certa: basta viver.

Não se preocupe comigo, não sou suicida. Sou resignada. Sim, vou ter uma vida mediana e mundana, como todo mundo. Acordar-trabalhar-sair-gozar-dormir. Porque é isso. Todos os dias, até o fim. Essa história de “ame seu trabalho e você nunca terá de trabalhar” é balela. Obrigação remete à responsabilidade, lazer não. A obrigatoriedade de fazer algo para poder conservar a minha vida, minhas necessidades básicas e meus prazeres ultrapassa esse conceito idealizado de trabalho. E se gostar, tanto melhor, será menos sofrido.

Não me leve a mal, não estou dizendo que não vale a pena ou não é bom viver. Já superei essa fase. Só que a vida é feita de projetos, e eu mesma tenho vários. Eu os crio o tempo todo, eles pululam  na minha cabeça sem muito esforço. Mas a estagnação do Hoje, por causa da pandemia, faz com que eu me sinta desmotivada. Porque não podemos fazer nada. Em vários níveis: não podemos sair, não podemos pôr os planos em prática, não podemos sequer resolver essa situação! A não ser que você esteja pesquisando a cura, claro. A única coisa que podemos fazer para colaborar minimamente é, justamente, nada. Um nada dentro de casa, obviamente.

A desmotivação me engole de corpo inteiro. Porque eu tenho vivido o mesmo dia seguidamente. Eu e basicamente todos. Praticamente há cinco meses o mesmo dia se repete, igual naqueles filmes clichês do tipo “a morte te dá parabéns” ou “boneca russa”. Mas é um filme de terror sem emoção alguma. E o mais desesperador é que, ao contrário do que acreditávamos em abril, não temos mais a ilusão de estarmos perto do fim.

Infelizmente, estou meio desesperançosa quanto a uma chuva milagrosa que varreria toda a doença. Que pena, seria uma ótima solução. Uma contenção por meio de confinamento é uma ideia mais alucinatória ainda do que a da minha chuva milagrosa, nesse país. Só nos resta a imunidade de rebanho e ou a vacina.

E ambas, ao que tudo indica, só deverão acontecer, com muita sorte, reza e fé no nosso senhor Jesus Cristo, em outubro. Aliás, meu amigo não acredita nessa data, mas espero que os russos sejam pontuais. Não quero nem pensar na pesquisadora que falou em abril.

Então é isso.

Estamos vagando no meio do oceano em uma jangadinha DIY, sem remo, bússola ou água doce. Nada reforça mais a desmotivação do que a impotência, não é mesmo?

Não, não há o que fazer, a não ser implorar que o tempo passe mais rápido. Implorar para que, a medida que a apatia nos devora, ela tenha piedade de nos deixar um je ne sais quoi do qual nós possamos nos reconstruir a seguir.

Parece-me que não preciso mais filosofar sobre o motivo da vida, porque ela não há mais. Porque o futuro já não existe, o presente está suspenso e o passado acabou. Tanto quanto nossa casa, nossa prisão é nosso desejo do amanhã e nossa memória do ontem. E eu só sou um barquinho de papel num oceano de apatia. Eu até tenho um remo, mas já não me importo mais em remar. Eu só fico esperando para ver em qual escombro vou atracar.

Mas pelo menos “todo abismo é navegável a barquinhos de papel.” (Guimarães Rosa)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s