Histórias do meu vovô

Meu lindo vovô era um contador nato de histórias. Eu, saco sem fundo, não me cansava de ouvir e pedia sempre mais. Ele não costumava escrevê-las, mas me lembrei que, quando ele ficou doente, ele escreveu uma sobre o início de sua carreira.

Coloquei meu chapéu de arqueóloga e entrei no seu computador:

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minha irmã disse que é chapéu de pantaneiro, mas eu não ligo. O espírito Indiana Jones é o mesmo.

Procurei por entre arquivos que datavam desde 1999. Demorou um pouco, mas em meio a Fulanos X Beltranos, eu encontrei o arquivo oz histórias 1. Não houve o arquivo 2: com a doença, ele não teve motivação para escrever. Fato curioso, havia um arquivo chamado nomes de vacas sobre a origem do nome de três vacas.

Disponibilizo integralmente o curioso caso que ele escreveu em 29/12/2014.

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eu sou a prova de que não se pode morrer de saudade

 

Fui nomeado para o cargo de juiz de direito de comarca do interior de SP em novembro de 1.963. De acordo com a organização administrativa da época, publicada a nomeação no órgão oficial, havia necessidade de entrar em exercício, na própria comarca, quanto antes, de modo que todos os nomeados na época passassem ter a mesma antiguidade. Vale dizer, quem perdesse um dia, ficava atrás na lista de antiguidade, o que poderia trazer-lhe prejuízo na carreira.

Vão estas explicações para justificar todo meu esforço em estar na comarca no mesmo dia da publicação da nomeação no órgão oficial, considerando a distância em que me encontrava e as dificuldades de transporte à época.

E assim cheguei à cidade pequena, incrustada em colina, que havia sido revolvida à cata de diamantes. A cidade nasceu em torno de garimpos de diamante.

Vestido a caráter, informei-me onde se localizava o fórum. Foi fácil encontrá-lo, mesmo porque tudo era perto e circunscrito à área da Igreja Central.

Cidade absolutamente vazia. Calor próprio da região, em torno do velho edifício do fórum, que abrigava, na parte inferior, a cadeia pública.

Em seu entorno, exuberantes “flamboyants”, exibindo, orgulhosas, suas flores sanguíneas.

Bancos de cimento ocupavam a sombra projetada pelas árvores e, em um deles, cansado transeunte, assim imaginei, refastelado, acomodava os braços, no encosto do banco. Pés descalços, havaianas ao lado, friccionava o verso do pé entre os dedos do outro, demonstrando prazer.

Foi ele quem me indagou:

-“O senhor é advogado? Olhe, aqui não tem ninguém. O Sr. Poderá encontrar a escrivã naquela casa verde, apontando um velho sobrado mais abaixo.

Respondi:

– Não sou advogado. Na verdade, sou o novo juiz da comarca.

O desconhecido deu um pulo. Colocou as havaianas em seus pés, limpou suas mãos na perna lateral, aproximou-se e disse, com simplicidade estampando um sorriso simpático:

Muito prazer. O Sr. é o juiz e eu sou o preso!…

Realmente, tratava-se de um condenado. Mané macaco seu apelido. Furtara cabos de cobre que constituíam as linhas telefônicas rurais. Cumpriu pena integral, segundo um regime próprio local porque lhe foi proporcionado trabalho, atenção e cuidados com sua família. Todas as vezes (e foram muitas) que retornei a essa encantadora cidade, o Mané era o primeiro a me cumprimentar.Convive-se nos pequenos círculos sociais. Os grandes, corrompem.

 

Texto escrito por: Olavo Zampol.

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12 comentários sobre “Histórias do meu vovô

  1. Marina Proença disse:

    Quiséramos nós ainda fosse possível uma justiça assim, perto do criminoso, adequando-se às suas peculiaridades. Mas quiséramos também não fossem os criminosos de hoje tão cruéis e desprovidos de empatia para com suas vítimas, o que anula qualquer possibilidade do desejo anterior… Que gostosa a lembrança do seu avô!

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  2. brucohen disse:

    Amei, miga! Seu vovô era muito especial! Amei ter conhecido ele, e as poucas vezes que nos vimos foram suficientes pra eu ver a grande pessoa que ele era! Adorei a história!! E eu acho que você podia escrever as histórias dele que você lembrar pra postar aqui no blog, que tal?? 😀

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  3. deliriumscribens disse:

    Engraçado, faz poucos dias que conheci esse blog, vim ler esse texto e imediatamente me lembrei do meu vô, que morreu faz uns 20 anos – eu era criança ainda. Tenho algumas lembranças dele e sempre ouvi histórias sobre quando ele era vivo. Que legal que o seu deixou textos prontos guardados. É bom ler essas histórias e relembrar.

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