Agatha Christie, rainha do crime…?

Em novembro, chega ao cinema a mais nova adaptação de um livro da Agatha Christie, e aproveito a ocasião para palpitar. O filme, assim como o livro, se chama Assassinato no Expresso do Oriente, e você pode assistir ao trailer clicando aqui. Não consigo colocar o vídeo diretamente no texto, porque minha conta é simplória e grátis! #prioridades #choices

O fato de estar sendo lançado um filme do livro torna esse livro o melhor da Agatha? Não vou me alongar muito nessa questão, mas a resposta é não.

Hoje eu estou faladeira, então vou me prolongar. Voltemos a 2011. Eu e Agatha, Agatha e eu. Como eu contei no post sobre Sherlock Holmes, eu sempre tive muito medo de coisas que flertassem com o suspense, para dizer o mínimo. Ah, tanto tempo perdido… Foi quando eu ousei ler o cão dos Baskerville, e um novo amor nasceu: por Sherlock Holmes (mais pelo Watson, eu diria), e pela literatura policial.

Eu preciso dizer que um dos meus maiores prazeres é descobrir & me apaixonar por um gênero literário novo: é um mundo se abrindo, um parque de diversões recém-inaugurado, um infinito de possibilidades… É, basicamente, reforçar a minha fé na vida. Isso aconteceu em 2011, com a literatura policial, em 2013, com o fantástico, e agora em 2017, com o teatro moderno e contemporâneo. Assuntos para depois, aguarde (ansiosamente).

Voltando, eu mantenho uma listinha com todos os títulos que eu li, desde 2011. Então posso afirmar com absoluta certeza que já li 25 (!) livros da Agatha Christie. Não é tanto assim, considerando que ela produziu cerca de 66 romances de mistério, 163 contos, 19 peças, poemas, autobiografias e mais outros romances normais! Mas eu sou fidelíssima a meus autores, na verdade. É aquela coisa, quando o mel é bom, a abelha sempre volta.

Vamos aos dados: Agatha Christie tem produções que se estendem dos anos 20 aos anos 70 (ela morreu em 1976). E isso é muito legal, porque ela usa os acontecimentos históricos em alguns romances, por exemplo em O adversário secreto, que envolve documentos secretos no pós primeira guerra. Esse romance é investigado por Tommy e Tuppence, um casalzinho espoleta. Os romances de Agatha são classificados em geral pelo seu detetive: os mais conhecidos sendo Hercule Poirot e Miss Marple, mas às vezes é alguém que o leitor não conhece mesmo, algum personagem dentro da trama que resolveu ser sapequinha e investigar um crime. Confesso que não gosto muito desse caso, mas ironicamente um dos melhores livros da Agatha não tem um detetive conhecido e amado pelo público (cof Hercule cof cof Poirot). Falo dele já já (suspense).

O primeiro romance que li foi Cartas à mesa, resolvido magistralmente pelo bigode mais lindo da literatura: Hercule Poirot. A questão é muito simples, quando você lê a primeira vez um romance policial, o desfecho é sempre tão impressionante, você está tão acostumado por outras mídias a seguir o percurso que te levaria a concluir o óbvio, que eu te garanto, você fica embasbacado por uns três dias. Eu fiquei. Tanto que, dos quatro livros seguinte que li naquele ano, três foram da Agatha Christie.

Hercule Poirot é descrito como um belga pequenininho, extremamente detalhista, apaixonado por simetria, limpeza, organização e seu bigode perfeitamente perfeito. Ele também gosta muito do tema “plantação de abobrinhas”, e eu amo isso nele. Eu amo ele e quero me casar com ele, eu sofro muito com isso. Muito atores já interpretaram o Poirot (isso me lembra de dizer que se pronuncia Poá rô, um beijo pra minha amiga Luize, que me perguntou isso uma vez!), na verdade, existem diversos filmes, e até uma série, baseados nos romances de Agatha, porém, são mais antigos.

poirot 1

David Suchet, na série britânica Agatha Christie’s Poirot. Bigode econômico, né?

poirot 2

Kenneth Branagh, em Assassinato no Expresso do Oriente (2017). Esse perdeu a mão de quando dizer pare pro bigode… E esse cavanhaque??? Vou processar.

Eu sinceramente não sei qual é pior. Qual a dificuldade de fazer um bigode perfeito? Na verdade, eu sempre imaginei o meu Poirot dessa forma (mas de terno e meticulosamente penteado):

pedro paulo

Pedro Paulo Rangel, na novela O cravo e a rosa!

Bigode na medida. Isso é muito importante pra ele. Isso é muito importante pra mim. Não vou me estender sobre a Miss Marple; é uma idosa que só tricota, não sai de casa e, na verdade, os casos caem no colo dela como se fosse “conversa do chá da tarde”… E ela dá o pitaquinho dela, resolvendo tudo. Falando nisso, vou fazer um chá.

Vamos às obras. Qual ler primeiro? Qual é mais legal? Você pode seguir os dois caminhos, ler pela sequência ou por preferência. Na verdade, acho que só um romance tem pré-requisito, mas não é obrigatório… (aqui você encontra uma lista cronológica dos romances)

No caso de Cai o pano, temos a última história de Poirot. É legal ler esse livro depois de ter um certo conhecimento sobre o percurso do detetive, porque o desfecho fica mais emocionante! E também o palco da sua última trama se passa no mesmo lugar que acontece a primeira trama de Poirot! Por isso, aconselho a ler primeiramente O misterioso caso de Styles. Não muda muita coisa na narrativa, mas é tão legal fazer uma pontes entre os dois romances!

Em O misterioso caso de Styles, a rica proprietária da mansão Styles é encontrada morta por “ataque cardíaco” em sua cama, dentro do quarto trancado. Porém, o médico que a examinou desconfia de assassinato por envenenamento. Poirot aparece, todo pomposo, pra resolver esse mistério! Já em Cai o pano, Poirot, já idoso, em cadeira de rodas, volta à mansão Styles com um amigo, onde hoje é uma hospedaria. Poirot pressente que, entre os hóspedes, há um assassino, e que alguém corre perigo…

O mais legal desse último caso de Poirot é que Agatha o escreveu nos anos 40, com medo de empacotar, e que nosso queridinho ficaria por isso mesmo (à mercê de exploradores que poderiam subscrever sua história, o que de fato ocorreu). Então, escreveu seu último caso e guardou-o em um cofre, para que fosse publicado somente um ano antes de sua morte. Acho que ela já sabia que era hora

Já o primeiro romance que eu li, Cartas à mesa, tem um enredo muito intrigante: quatro investigadores, incluindo Poirot, são convidados para jantar com mais quatro pessoas, além do anfitrião – que é uma pessoa meio uó. Mas quando descobrem que uma das pessoas que parecia estar cochilando está, na verdade, empacotada, muita desconfiança surge.

A própria Agatha dizia que o assassino é sempre a pessoa que a gente menos espera, e um dos meus hobbies preferidos é tentar adivinhar, segundo essa lógica, o desfecho do caso. É claro que eu dou cerca de trezentos palpites por capítulo, mas somente uma vez eu dei o palpite certo (entre um montão). Eu fiquei tão feliz a ponto de falar isso aqui.

Foi justamente no maravilhoso O caso dos dez negrinhos, retraduzido em 2008 para E não sobrou nenhum… por conta de uma polêmica sobre o termo niggers do título, principalmente no mercado americano. O romance passou de Ten little niggers para And then there were none, e o mercado brasileiro acatou. Atenção: existe a publicação de E não sobrou nenhum… como romance e como peça de teatro (adaptada do romance). Fique atento para não comprar gato por lebre ou lebre por gato.

Se esse não é o melhor romance, definitivamente é o segundo melhor. É o romance que falei mais acima, que não tem um investigador já conhecido do público. Imagina se tivesse o Poirot? Imbatível! A trama conta a história de dez pessoa que são convidadas a passar uma semana na famosa Ilha do Negro (ou Ilha do Soldado, depende da tradução). Quem comprou a ilha? Um magnata americano? Uma atriz de Hollywood? Há rumores até de que a ilha seria da marinha, para fazer experiências secretas! E quem os convidou? Cartas com assinaturas ilegíveis… Mas férias grátis num lugar famoso, quem não iria?! Eu não, pois li muitos romances policiais.

Ao chegarem na Ilha, o anfitrião não está, e um gramofone começa a tocar um disco, acusando cada um dos visitantes de um crime, que eles negam – claro. Em cada quarto dos hóspedes há um poema, e o mistério é que os visitantes começam a morrer de acordo com o poema! O poema, que é uma cantiga infantil, é: (leia em voz alta, é muito mais legal)

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;

Um deles se engasgou, e então ficaram nove.

Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!

Um deles cai no sono, então ficaram oito;

Oito negrinhos vão a Devon em charrete;

Um deles quis ficar, então ficaram sete.

Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis 

Que um deles se corta, então ficaram seis;

Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco;

A abelha picou um, e então ficaram cinco,

Cinco negrinhos vão ao fórum, a tomar os ares;

Um deles foi julgado, então ficaram dois pares.

Quatro negrinhos vão ao mar;

a um tragou de vez

O arenque defumado, e então ficaram três.

Três negrinhos passeando no zoológico. E depois?

O urso abraçou um, e então ficaram dois.

Dois negrinhos brincando no sol, sem medo algum;

Um deles se queimou, e então ficou só um.

Um negrinho está sozinho, é só um;

Ele se enforcou, e não sobrará nenhum.

Só se pode chegar e sair da ilha de barco, e não tem mais ninguém na ilha. Quem poderá ser o assassino? Como sobreviver? Esse caso é tão bom que eu encontrei esse livro no sebinho da faculdade, e estou relendo. Eu não posso passar no sebinho da faculdade, da última vez comprei 5 livros numa tacada só.

O outro romance que disputa o primeiro lugar é Os crimes ABC, dessa vez investigado pelo Poirot. Em geral, os romances abordam um tipo preciso de criminoso: motivado por ciúmes ou ambição financeira, comete o assassinato em um contexto específico. Ou seja, são crimes psicológicos, segundo Poirot. Nesse caso, não. Poirot tem de lidar com um serial killer que o desafia a solucionar o mistério, e cuja motivação para matar aparenta ser a vontade de matar. E seguindo uma metodologia bem definida: a primeira vítima possuía nome e sobrenome começando com a letra A, e foi assassinada numa cidade cujo nome também começava com A. A segunda vítima, tudo era com B, e assim segue o alfabeto… A dinâmica desse romance cria uma expectativa incrível, digna das melhores séries da Netflix, e o final não decepciona!

Se você quiser ler algo da Miss Marple, recomendo Convite para um homicídio. A trama é exatamente o que sugere o título: diversas pessoas recebem um convite para um homicídio e, ao chegar ao local, o homicídio realmente acontece! Na frente de todos, mas sem ninguém perceber! Se quiser algo mais curto, para experimentar, vá de Os treze problemas, onde cada capítulo narra um pequeno caso – também no estilo “estamos tomando chá, aconteceu isso, quem você acha que foi Miss Marple?” que citei anteriormente. Inclusive eu fiz o chá, é de “mango magic”. Adoro chá de manga, mas é tão difícil de achar…

Se você quiser um desfecho diferente do padrão, vá de O assassinato de Roger Ackroyd, de Poirot.

Acontece, infelizmente, de ter livros que não gostei. É o caso de A extravagância do morto. Talvez eu estivesse com muita expectativa de ter aquela sensação, o choque do final, porque foi meu terceiro romance… Eu ainda estava em lua de mel com a Agatha, não acreditava que ela poderia me decepcionar… Ou talvez a excelente trama do início (alguém morreu!) criou muita expectativa pro desfecho final. Aliás, é preciso dizer que as narrativas de Poirot seguem certo padrão:

  1. a vítima está vivinha e serelepe, mas alguma coisa já indica que ela pode ser uma vítima. Em geral, é a pessoa mais rica, muitas tramas envolvem herança; às vezes ela até entra em contato com Poirot, dizendo temer por sua vida. Eu adoro quando isso acontece…
  2. a vítima vira vítima e é descoberta: alguém morreu!
  3. uma pessoa é apontada indubitavelmente como culpada.
  4. Poirot investiga. Ele costuma saber mais do que ele conta… é um danado mesmo.
  5. Poirot reúne todas as pessoas envolvidas e faz da revelação um espetáculo, exibindo quem foi e porquê.

Apesar de relativamente sequencial, sempre tem alguma novidade, é muito difícil a trama não te agarrar: uma vez, nas férias, eu li um romance inteiro em um dia. Foi Um brinde de cianureto. Muitos casos envolvem veneno, o que me deixou curiosa. Porém, fiquei com medo de procurar no google e a polícia bater na minha porta.

(O meu chá ficou fraco e eu estou triste.)

Um conselho muito importante. É seguro ler as resenhas que aparecem nos livros, para tomar conhecimento da história. Porém, nunca leia os comentários dos leitoresÓbvio que uma vez eu cai nesse erro e a primeira frase do comentário foi “não gostei que o assassino foi fulaninho”. Espero que essa pessoa leve um spoiler bombástico da sua série preferida.

Bem, eu gosto de colocar várias fotos para ilustrar o texto, fica mais divertido de ler, mas hoje foi mais difícil, por isso finalizo com uma foto do meu chá.


Ah, e quanto ao Assassinato no Expresso do Oriente? É realmente um dos títulos mais conhecidos, eu precisei pegar emprestado com um amigo, porque estava esgotado (obrigada, Felipe!). O desfecho foi totalmente surpreendente e diferente de tudo que já li na literatura de Agatha. Estou muito ansiosa para o filme, e espero que comece uma nova tendência de adaptar Poirot no cinema!

E você, já leu algum livro da Agatha Christie? Deixe seu pitaquinho!

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4 comentários sobre “Agatha Christie, rainha do crime…?

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